sábado, 19 de fevereiro de 2022

Tenho mais sustos que luas


Acham-me arteiro, mas nada disfarço.

E até vario, mas não é pirraça. Só força do espinho que encrava ao passo.

Tenho mais sustos que luas!


Vario, vário, vario!


Vago largo e rasgo até chegar fevereiro:

Como quem vive largado no mundo,

E já nem sabe onde deixou o cansaço.


Pra que toda tinta e perfumaria,

Quando me trai à boca o amargo veneno?

Valem finos fogos, papos ou remendos?  

Não sei...

Nada será bastante fundo. Mas ainda queremos prazer.

Será por isso o passo arrastado do meu destempero?


Escondo-me por detrás da natureza em vício,

Na esperança de um descanso que me perdoe a inconstância.

(Me torno mais inconstante ainda)


Tenho pouca fé. Acredito no que vier. 

Mas meu coração já não dorme.


A relva bruta brota e nos toca sem precisar.

Não há glória, rancor ou alegrias na vida;

Apenas “há” de um haver que se basta,

Sejam velhas ou jovens cepas de folhas e raízes e troncos. 


Os bichos trabalham com espanto corriqueiro - ou sua ausência.

Doenças e morte, irregularidades da topografia, ramagens e sorte.

Tudo é mote para aceitarmos o vento, reconhecendo vez por outra sua direção e esquecimento.


A precisão de ser alguém é privilégio de bicho humano. Adoecer a alma.

Gostaria de não ostentar nada... 

O silêncio é grande, o sol desaba.


Sobre a planície sangrenta há roseirais e águas lamacentas.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Esperança

 

Uma esperança moribunda e pobre,

Que de tanto pesar já não move,

Se apresa nas fileiras da lida.

Há quem diga, seja rancor já sem vida;

Tem quem creia, seja fome, dor fincada no não mais.


Talvez seja só desespero

Dessas Good vibes tóxicas que não sabem chorar.

(Mas quando o mundo se acabar, quem fará nosso luto, obituário das noites tenebrosas?)

 

A outra esperança é real e mais singela, não espera,

É revolta de revoada, cesura inconformada contra o medo e apatia. 

Gosta de poesia. Conversa com animais.

Luz e sombra em fevereiro. Selvagem destempero que abre o há de vir. 

Quer mais.


Eu fui um doido que abraçou a ambas. 

Cumpri loucuras que mal sabia, esquecido de mim à revelia.

Poderia ter sido cego...


Tudo muda, tudo queda, dor e prazer viram merda.

Justiça, merecimento, transtorno ou destino são  filhos do tempo que mal pressentimos.

Eu?! 

Acreditei num mundo vindouro para além do meu destino:

De ternura,

Com seres feitos de menos ódios e mágoas, menos orgulhos e amarguras.

Sem que fracasso e arrependimento nos definam.


Mas também doei calamidade. Sou insônia.

Em minha fragilidade, disparei rebeldia contra o insulto totalitário dos eternos.


(Como não tomar partido nessa guerra pela vida que é a vida? )


Erramos às vezes...

Eu tive medo.

Mas não quis me tornar arrependimento.

Quis o reverso.


Ah sonho miúdo do meu apreço, bem acreditei nos recomeços dos beijos e versos.

Não! Eu não busquei o inimigo na noite escura, na tarde vazia ou minha clausura.

(Bastava-me a felicidade bem temperada)

Mas ele veio mesmo assim... Com mentiras e garras, faca amolada. Face dura que não esqueci.


Da primeira vez não pude nada, senão fugir.

Só que não, não mais. Nunca mais...

Buda sabia: não há felicidade para quem vive ao seu encalço.

Mas se a felicidade continuar frágil ou miúda, 

Urgente será agir, mesmo que pelo silêncio crasso.


Cansei de ser o escravo;  

Forasteiro preso na Casa Grande, 

Paralisado pela ânsia auto-congratulatoria da denúncia.

Ah, desapreço da calúnia!

Cansei de ser a mentira parasitária, provisória-pra-todo-o-sempre;

De ser o acidente que escapou do motim, vergonhoso de salvamento.


Desprezo agora a espera impotente!

E não mais serei o açoitado:

Fugitivo que pelos porcos traído,

Morreu sonhando ser libertado por Isabel no botequim.


O meu sonho é Zumbi!

Não se pode caber no sonho alheio.

Caminhar junto é dar as mãos... Não é seguir...


Quando jovem, um vento passou

E a flor do meu sonho foi despetalada.

Era como se eu quisesse nunca ter sonhado,

Por não saber esperar a esperança

Dentro dum sonho que nunca esqueci.


Conhecer é caminhar sem volta pela ruína,

Mas amar sozinho é não ter para onde ir.

Desposada a imensidão,

Descobri que havia extraordinário

Nas pedras e sementes, nas crianças e nos colibris.


quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Manhã de Natal


"Por que nós nos alegramos em um nascimento e choramos em um funeral? Porque não somos a pessoa envolvida."

                     Mark Twain 



Manhã de Natal, antes do café. O dia clama pelo Especial de Fim de Ano: Solstício de Nazaré.

Já sem pressas, passas, figos ou rijos rituais... Agora sim, nos entreguemos às saturnais.

Alguém na casa acorda mais cedo, abre armários e geladeira, prepara rabanadas e anda pela sala à remexer presentes ao pé duma árvore de plástico vinda de país distante. Entre enfeites de esferas, guirlandas, sinos e bengalas bicolores, harpas, flocos de neve, laços de fita, sapatinhos de pano e papel, estrelas e encantados, candelabros e, alhures, animais, nos perdemos. Os especialistas dizem que os tons verdes, carmesins, chocolates, rubros, brancos, vinhos, dourados, prateados e escarlate, isso tudo recheado com muito glitter será a tendência de cenário desse início de verão - assim como de todos os passados abaixo do equador. Pessoalmente sempre adoro, hipnotizado, as luzes que brincaram de piscar noite inteira.

Mas voltemos um pouco no tempo...

Mal começara dezembro, e resgatamos caixas empoeiradas em fundos de baús dos festejos passados e, o que faltar, compramos de novo na Av. Sete, Barroquinha e Baixa dos Sapateiros - aqui "ninguém  é menino". Não há festa mais Made in China que o Natal.

Mas tomado por velhos espíritos natalinos, é como se eu ainda tivesse saudades de coisas que não vivi.  Tambores de pele e madeira, fogos e céus estrelados; saudades de silêncios e velhas charneiras. Serão atavismos fetichistas que em mim guardo?

Todavia, ao invés de abater um grande peixe, res ou fera nos liames verdejantes da floresta arteira, como fizeram por séculos  nossos ancestrais, nas vésperas da ceia nos arriscamos, todo ano, heroicamente entre perigos de empórios e Shoppings Centers, essas modernas selvas para caçar presentes.

Lutamos ferozmente: primeiro, com os dilemas sobre o que dar à quem; depois, com as atrozes contas: se faremos à débito, pix, papel, escambo ou cartão de crédito - a difícil escolha das armas; em seguida temos de brigar, brandindo punhos e imprecações por uma vaga no estacionamento abarrotado - quase diria, uma vaga no inferno; e, após tudo isso, lembrem, precisamos ainda sobreviver à caça mais astuciosa: lutar e vencer vendedores, dores e falsas promessas, lançando feitiços e percorrendo quilometros por horas em busca da temida e cobiçada lista! 

Isso tudo, veja bem, em meio à multidão furiosa e sanguinolenta querendo mais. 

(Mas altaneira; quase fofa, e excitada de encantamentos consumeristas) 

Pra finalizar, temos de montar cardápio e comprar ingredientes. E se os deuses, deusas e o clima do planeta ajudarem, quem sabe na Ceia entregaremos um prato minimamente decente.

Vamos a ela?!


Não sou fã da hora da ceia... Esse texto é mais sobre os doces atentados à tristeza que ocorrem depois dela...

Mas vamos lá...

Dia 24, clima de festa, muitos afetos e alegria.  Procedimentos tecno-mágicos meticulosos são aplicados para que os pratos fiquem à contento; faz-se multirão de limpeza, ocorrem as compras de última hora, garante-se a segurança para que meliantes pets e humanos, gulosinhos, ansiosos e indisciplinados não desfalquem antecipadamente ingredientes. Enfim, muita agitação e função na cozinha e casa como um todo. Todos compenetrados em seus papéis na missão - inclusive meliantes humanos e não humanos. Muita apreensão e euforia se misturando, mas não vou mentir, bem me lembro: à noite, depois de tudo, caí em pecado.

Foi aí que abracei o capeta! No momento mesmo em que disse pra mim: "Sabe de uma, Eu mereço!"

Tomei uma gelada com queijo cuia, porque ninguém é de ferro né? ! Hummmm... 

Daí o bicho pegou! A gula e o vinho... Fofocas, a vaidade, sincericidios etílicos, eróticos - luxúria - e poéticos, além de impaciência e preguiça... Tb inveja dos presentes dos outros, medo de ter gastado em excesso e receber presente "péba" - avareza - são o maior normal nessa hora de amor profundo. Inesquecível que nem unha encravada com sapato apertado... 

Na moral, foi ladeira abaixo...

O movimento é  sensual, ostentação é a parada... Devagarzinho até embaixo...


"Na real"?! Acho que o soteropolitano não curte lá muito o Natal.

(Dizem por aqui tudo vira Carnaval, e tem uma hora em que o povo alopra geral, decide levar até de manhã - inclusive, atrapalhando a invasão domiciliar noturna de Papai Noel -, e começa a confundir o velho Santa Claus com Bel do Chiclete, Ivete ou até Carlinhos Brown)

Se ligue "miserevê". Pegue a visão. Tá "vacilano"?

Meia noite, Missa do Galo, todos em pecado, há-pagão geral?!

Essa coisa de energia de que fala a "galera-coelba" do esoterismo, não é mentira não. Rola mesmo véi...

(Mas somos só limitados humanos e, tanto que, também tanto amamos, "na vera" mesmo e "de-com-força")


Belém blem blem pra gente!


E anote ai; Quero meu momento íntimo com o Cristo-Noel velho-criança gorduchinho que nasceu.

Na manhã do dia 25, quase ano bom, subirei telhado para admirar a Cidade, mesmo que ressaqueado e peidando à chester com frutas cristalizadas;


Mas se ligue "minha pedra", se vc achou que até aqui foi chato, se prepare, porque agora vem aquela parte existencial chata pra caralho do texto em que eu choro "e as porra". 

Sem falar do embaraço que pode se tornar pra esse povo "esnobe que nem eu" - acadêmicos de esquerda das humanidades, e de pouca fé -, confessar esse crime hediondo, esse amor quase cafona e sentimental pelo Natal...

Mas se chegou até aqui, te desejo força guerreira(o) que me lê! O texto é exagerado mesmo; verossímil, mas um tanto ficcional também, muito de classes médias nele, às vezes kitsch, mosaico beeeeemmm colorido de coisas aparentemente desconexas, que nem Natal mesmo.


Muito bem...

De longe a cidade parece gospel papel.

Eu até atrevi do dia a imagem,

Presépio astuto de beleza e crueldade...

Quisera eu fosse um passarinho;

Sou sonho agitado.

Após fitados e fatiados que nem panetone todos lugares ermos e ninhos, sofro só de imaginar tudo que a vista não alcança.

A data remete ao fluxo de morte, vida e renascimento, de reconhecimento de si e recíproco diante desse movimento incessante; desse acertar as contas com a gente, e nos dar conta francamente da difícil engenharia entre o que queremos, podemos e precisamos. Mas também do que demandam da gente.

(Será por isso que os Três Reis Magos encontraram em meio à noite no deserto o Messias Pequenininho? Perseguindo o impossível?)


Em meu divã não há colirios, cirios, nem coleiras, apenas flores, espinhos, algumas lanças e pederneira. Mas tb há dança e carinho no cadinho.

Meu divã é estômago, estrago que arde e quer vinho. É a cidade com todos nela e suas maravilhosas navalhas dos anjos e diabinhos, com Jesus Menino protegido a nos proteger dos perigos da manjedoura imóvel. 


Ah quantos presentinhos de Reis ainda há de nos dar a memória... 

Dar e receber presentes é o que tece a paz e amor universais entre as gentes.


Há sol, espreguiço ante o espelho em Mi bemol.

É quase janeiro. Sinto-me tolo feito Noel que não soube ler a escritura dos tempos nos versos alheios. 

Não pude dar o que queriam. Alguns sapatinhos ficaram frios e vazios... Talvez alguns presentes tenham sido trocados, extraviados ou roubados, quem sabe... 

Meu papel aqui pouco tem a ver com a verdade,

Mas com os muitos possíveis muito além da minha inútil medida.

Isso talvez tb seja a tentativa de converter nossa miséria em arte.

Salvar pelo sonho minha pífia cristandade?


Só sei que o café que ontem à tarde ardia, agora esfria. 

Por onde irá aquela que outrora foi tão boa companhia?

Alguns estão nesse momento celebrando alegres com aqueles que momentos atrás repudiavam.

(Pessoas raramente "decepcionam")


Acendo luzes e velas e, ao meu modo, também celebro.

Bela ceia bom barqueiro, cantarei todo aquele que tb quiser celebrar, e me celebrar, independente das dinastias desse longo mar.

Há muito amor num mundo que tb é mentira e dor.


Ainda te mando mensagens em garrafas ao mar, e recebo as tuas, com desejos de danças e dias risonhos.

(Para nós, nada menos que o melhor)

Ano que vem não virá de novo o fevereiro e, como não farei anos, não ficarei mais velho dessa vez.

Farei apenas uma canção de amor pra esperar a volta da alegria. Isso não é a periodicidade necessária do Natal?! Essa festa tão cristã quanto pagã?!

(Um dia farei amor com ela)


Mas o ano que finda não aconteceu nem acontecerá ainda.

Tive dias duros e escolhas complicadas. Não me iludo. Nesses dois últimos anos talvez tenha perdido mais amigos, parentes e até mesmo sanidade e conexões afetivas que nos 10 anteriores. Muitos perderam muitas coisas, e nem sempre é fácil encontrar razões pra continuar.

Morte, finitude, perdas e renúncias compõem a própria possibilidade da vida.

(Mas voltemos à leveza, por favor)


Ahhhh, resgatei o Natal já mais velho e cascudo numa casa em que "o negócio é sério"! Rabanada e biscoitos, nozes e chocolate; panetone salgado tostando na chapa de manhã com queijo cuia e apresuntado. Tudo partilhado, tudo me liberando pálpebras, papilas e pupilas. Se tem criança, melhor ainda! O riso solto e resenhas, presentes e pilherias pra trocar. Quem mais gostou do quê, vamos confessar... As vezes há promessas e acidez estomacal na balbúrdia da mesa quente da cozinha. Alguém bebeu demais, já deu dez de relógio, mas não descola da cama - houve dia em que fui esse tb... Quem têm Magnésia Bisurada, Novalgina ou Sonrrisal?  E a depender da família e das besteiras que fizemos, vale o combo: Magnésia+Engove+Rivotril né? 

Aquelas canções de melodias agridoces, meio alegres, meio tristes, falam de neve e bonecos de neve, pinheiros, frutas, comidas, lugares, objetos e seres que em sua maioria nunca vi, mas que a mim parecem íntimos desde sempre. Esse doce folclore que veio do norte. E há quem goste mais, quanto mais as fantasias saem jazzadas da fornada musical.... 

(Tudo bem, o vermelho vem da Coca Cola e a Finlândia só embarcou nessa pra atrair turistas)

Quase vou com tudo nessa lúdica viagem transcultural.

Mas não posso me enganar, esquecer. Nesse ano em particular há quem não tenha pão, paz e, muito menos queijos, presentes e vinhos para partilhar.

Mesmo assim, se é manhã de Natal, presentes espalhados e sobras da ceia perfumam e colorem especialmente a casa de quem teve o privilégio da mesa inteira.

(Seria fácil me culpar. Prefiro lutar  pra que todos possam ter)

A família que temos, aquela a qual confiamos nossas mãos, é a medida mais imediata da celebração. Mas há tantos outros que tb importam... E tantos que já se foram...


Nessa manhã há sol longo e lento, e galos conversando, convocando em alto som o novo; tudo faz tudo mais especial nessa euforia em movimento...

Para os galos seria só mais um dia – exceto porque para eles, galináceos, nesses ciclos festivos aumentam as chances de tombarem nas assadeiras de todo o mundo.

Galináceos do mundo, não uni-vos!


Porém, se Papai Noel - São Nicolau - não existe, por certo é a ficção mais influente e lucrativa do planeta. 

Bom Velhinho vermelho e barbudo youtuber, nunca me esqueça. 

Ai que mesmo depois de adultos continuamos a esperar seus presentinhos, quem sabe pedidos em "amigos secretos" - esse Papai Noel para crianças crescidas que nem a gente.


As más línguas dizem, rolaria até certa treta com o tal Jesus do morro vizinho, o homenageado mais velho, filho do homem, cordeiro do mundo. Mas pra quê tudo isso!? Deixa os caras trabalharem juntos: pagão, moderno, antigo e cristão. Tudo em prol e em paz, compromisso pela comunidade... “É nóis, tamo junto! Comunidade sempre! Os dois representam!” 


Enfim, na infância tive de acreditar nele Noel até mesmo pra ganhar presentes, ora bolas... complô planetário poderoso como esse nunca se viu... 

(E como foi bom ter sido assim enganado)

Hj quando me enganam, logo descubro que tive cartão ou celular clonado!


Adulto, compreendi, Papai Noel agora sou eu. Acho que já li algo assim. Desculpa o plágio. Esse encantado já mais humanizado talvez nos permita uma identificação que seria mais difícil de realizar com a espartana figura do Cristo em fuga, nascendo numa gruta em meio ao rude deserto. No Natal, talvez queiramos, atualmente, só podermos fugir dos desertos que por vezes têm sido nossas próprias vidas. 

O Noel que conhecemos foi inspirado num bispo do século IV da Turquia que distribuía sacos de dinheiro aos necessitados. Um provedor, protetor caridoso, cuidador cristão-burguês quase asceta e celibatário, mas apenas quase... Porque na composição de sua função de colo e relaxamento diante das durezas do trabalho e cotidiano, inventaram uma Mamãe Noel que, aliás, é frequentemente sensualizada nas lojas no fim do ano. Além do quê, o Papai parece eternamente sorridente e moderadamente embriagado - diria, de vinho... 

É como se tudo correspondesse à composição contemporânea de uma vocação pública adequada ao instante festivo extraordinário, necessariamente efêmero e esperançoso de um mundo melhor que não se realiza; senão que, periodicamente, em ato-memória se performatiza-ritualiza-teatraliza. Composição regada a um desregramento moderado similar ao que geralmente nos oferece o consumo recreativo. 

(Mas o sociólogo deve parar por aqui)

Enfim, digo que o Noel sou eu porque, entre outras coisas, bem sei que ando meio de saco cheio, tô mais gorduchinho, me forço às vezes o sorriso por quem amo, me sacrifico e trabalho por desejos que não são meus. Conto ficções pra acalmar e peço ajuda aos "anões" que me salvam todo dia. Preciso trabalhar, senão não haverá presentes. Mas derreto ao sol escaldante de fim de ano nos trópicos sem renas ou trenós pra me carregar, me espremendo pra entrar por passagens que nem sempre me cabem, muitas vezes sem ser desejado, e de onde às vezes saio sujo e empoeirado. Sem falar das vezes que não gostam dos meus presentes e mensagens...

Meu pedido: ser melhor Noel esse ano, do que no que passou - só pra que me façam ainda mais e mais gorduchos pedidos.


(Deuses estiveram aqui e me falaram contos de fadas, emprenharam meus ouvidos de risadas e gostei. Eu vou te contar tb)

Dizem que lutar com palavras é luta vã.

Todavia, se sou incapaz de ferir ou matar,

Tb já não sirvo pra rezar.

Mas se algum deus é Amor,

Seu profeta é poeta.

Sua "bíblia", poesia:

Que queime no inferno toda hipocrisia. 

Deuses falam comigo preferencialmente nas manhãs, todos os dias.

E eu que não sou ninguém, vivo à revelia.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Natureza


Nossa contrariedade, por onde anda? Ah, nossa contrariedade nada importa.

Apenas importa o jardim que a mão comporta, mesmo se dói demais.

Nossa vontade, pouco faz.

A dança da natureza é a mesma, nem justa nem injusta.

Ora singela, ora bruta com o vento, pedra e, todos nós, animais.

Disse o sábio sapo: seja como o queijo! Seja o queijo!


Ser intenso --  palavra charmosa para qualificar ansiosos e vinhos -, é viver esticado que nem queijo esquentado na desmedida: entre acordar com desejos e planos como se o dia tivesse mil anos, e à noite ir pra cama como se não fôssemos acordar nunca mais.

Mas o importante mesmo é: no café da manhã, não sejamos a "peçoa" que ficou sem o último pedaço do queijo de verdade, nem aquela que o comeu.

Nessas horas, entre pecadores gulosinhos, ai, ai tragicômica vida... A coisa fica séria, ninguém é de ninguém... E pouco importa o dia de hj ou o amanhã... Evaporam-se os grandes planos. 

Apenas aquele delicioso e efêmero pedaço de queijo cheirando tostadinho na chapa pode dar o verdadeiro sentido da vida.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Adeus Paulão (homenagem póstuma à Paulo Roberto de Sales Ribeiro, àquele que por tantos anos foi o meu sogro)


Minha morte nasceu quando eu nasci.
Despertou, balbuciou, cresceu comigo...
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi
.

                                      Mario Quintana

 Non videmus manicae quod in tergo est

O que fica da vida, da passagem de uma pessoa pela nossa? Existiria uma coisa feito o destino? Haverá a hora certa da partida? Como e quanto se lembrarão da gente? 

Hoje tudo ficou confuso, o mundo desabou. Como se não tivesse havido um fim, mesmo depois de o fim ter sido decretado, fosse pela aridez da natureza, pelas faces quebradas, rituais de despedida ou relatórios médico-periciais. Tudo dizendo "acabou", enquanto, simultaneamente, éramos tragados pela presença do que se fez ausente. 

Revivemos várias vezes os eventos, procurando por erros e respostas... queremos um sentido e, quem sabe, algo que ajude a expiar qualquer culpa ou remorso. E há Tb quem deseje esquecer. Mas será que "esquecer" não é só um nome diferente para o que mudamos do que ficou?

Gostaríamos de voltar no tempo... 

Mas é impossivel e, pra seguir, vamos redecorando escombros e pintamos a sala de "estar-bem",  enquanto o passado permanece tão misterioso quanto o futuro, como se os momentos todos se misturassem.


Paulão, como era chamado pelos chegados, era o tipo boêmio boa praça, não gostava de polêmicas esticadas, nem apreciava grandes refinamentos intelectuais. Tímido, falava pouco e em geral tinha um sentido pragmático, mesmo que muitas vezes tradicionalista, a respeito de suas ações e existência, mas falava e lidava com todo mundo. Era um sujeito simples tb nos gostos, e gostava de seguir regularmente suas rotinas. 

Era à moda antiga: devocionalmente religioso de um catolicismo sincrético e piedoso, herdeiro de uma Salvador de redes familiares e vicinais extensas, e que já não existe mais. Paulão acreditava, um tanto aristotelicamente, que o ser das coisas as destinava aos seus lugares predeterminados na sinfonia do mundo, assim como acreditava que qualquer palavra empenhada em praça pública valia mais que documentos assinados e registrados em cartório. No mais, para ele a beleza habitava o simples. Era o tipo que ainda acreditava ingenuamente, de uma ingenuidade bonita de se ver, e cada vez mais rara. Do que pude conhecer, isso resume em boa medida a sua "filosofia". 

Hj Paulo nos deixou. 

E hj, peço desculpas a ele por trair seu legado.  Hj. não acredito, não há paz, mas desilusão. Amanhã acreditarei, mas hj não. Quero ser triste e praguejar contra o sistema, e toda essa des-humanidade. Hj. sinto raiva. 

Paulo não vinha lá muito bem fazia tempo. Não era mais o mesmo de anos atrás. Parecia cada vez mais frágil e cansado, e um tanto triste às vezes. Acho que a pandemia o quebrou, como a muitos. Mas "tenho pra mim", ele gostava de viver.

 Estamos tristes.

Não que fôssemos os grandes amigos pra sempre, nós dois, isso não aconteceu. Éramos, de certa forma, incompatíveis até nos times, roupas e cervejas. Talvez o afeto mais intenso, mais profundo entre duas pessoas necessite de uma estação propícia de cultivo. Acho que não foi nosso caso. Mas nossas diferenças nunca impediram o convívio respeitoso e o desejo pelo bem um do outro, pelo bem recíproco, havendo por vezes pequenas rusgas por certo, mas tb auxílios gratuitos de parte a parte, e até momentos de verdadeira camaradagem, sobretudo em festas de família. 

Convívios longos costumam nos alertar demais para defeitos dos outros, e nos anestesiar para os nossos próprios. Ele, humano filho de Deus, tinha os dele; eu, os meus... E não posso esquecer, o recém chegado era eu; ele, o pai da moça! Ele,  quem me recebeu na família à qual devo tantas lembranças felizes.

E, em momentos como os de agora, sempre fica um vazio, deixa tristeza, e a dor maior que atingirá a outros nos machuca por tabela. À cada um caberá viver seu luto como for possível, e isso às vezes é solitário. Luto é tb cuidar dos vivos. E quem puder, por favor, abrace, se abracem. 

Perdemos o manual público do que fazer nessas horas quando decidimos, civilizatoriamente, pela liberdade. Liberdade para até mesmo não acreditarmos sequer em Deus, deuses, rituais, ou qualquer algo de eterno. E em tempos de positividade tóxica, celebração do corpo sarado, fotos no Insta e juventude eterna, adoecer e morrer e, pior ainda, falar da morte e do morto - essas palavras tabus -, tudo isso bem pode ser visto como sintoma do derrotado; maceração mórbida, inútil e dispendiosa. 

A morte é injusta, terrivelmente dolorosa. Às vezes queremos não pensar, dar um basta em nossa própria dor da perda - e, claro, chegará a hora em que isso precisará acontecer.  Mas penso que silencia-la apressadamente mediante decreto, seja por medo, repulsa ou qualquer razão, pode ser perigoso.


Um dia, isso têm anos, namorávamos torridamente, eu e sua filha, deitados no verão da varanda do saudoso Village de Lauro de Freitas, o mais antigo. Paulo nos flagrou acidentalmente, e só eu o vi. Gelei e pensei que fosse morrer naquele dia: de bala, susto ou envenenamento... Era início de namoro... Paulo, assim como eu, fingiu que nada viu. Nada nos disse e seguiu vida. Continuou me tratando como sempre... E eu, devolvi alegre e aliviadamente o presente. Talvez ele fosse menos rígido do que dava a entender em sua timidez sobre essas coisas, não sei dizer muito bem. 

Enfim... Paulo estava mais pra pacificador, era da turma do "deixa disso". E, muito menos, alguém o imaginaria levantando a mão pra ferir qualquer pessoa.

Ele era o tipo de figura do bairro que não brigava com quase ninguém, prestativo e negociador, urbanoide corretor de imóveis, caminhante da orla que todo mundo conhecia e cumprimentava, uma espécie de "monumento", discreto sem dúvida, ou presença local do aprazível Costa Azul. Acho que ele adorava esse bairro e, pelo que sei, vinha exercendo sua corretagem quase que exclusivamente dentro dele nos últimos anos. 

Muito bem, enquanto que após o lamentável afastamento forçado, tempestuoso e imprevisto ocorrido em maio de 2021, eu tinha “de certeza” que logo nos veríamos, a vida tramava pelas nossas costas suas próprias prioridades, e antecipava nossa derradeira despedida. Porque, estando em outra cidade, não pude sequer me despedir ou acompanhar o que seriam seus últimos dias. Só me restou escrever, e me consolar com esse texto póstumo como fosse nosso funeral e vigília, minha e dele. Nosso adeus possível. 

Em toda partida haverá um pouco da gente que se vai. Penso, seja uma troca. Quem nos deixa exige, como condição de doação mnemonica amorosa, levar um pouco de nós: mais nos tira, quanto mais nos dá... E a cura da perda não tem receituário. Trata-se muito mais de cafunés, paciência, conchinha e afagos, e tb de nos contarmos histórias sobre quem se foi, até irmos desapegado enquanto reelaboramos a perda aos poucos. Isso a que se chama luto. Porque narrar é dar colo de palavras... É dengo do tempo do verbo.

De resto, terei daqui pra frente que "vê-lo" pela porta da memória do quarto da suíte do Icaraí. Quarto esse em que costumava ficar em frente à TV, sobretudo nesse tempo de pandemia, e onde adorava assistir seu glorioso baêa. Mas prefiro ainda sua imagem ao volante quando íamos para o Village, e se faziam aquelas compras gorduchas. Paulo, nessas ocasiões, nunca aceitou qualquer contribuição minha. 

Era perigo de segurança e saúde públicas na cozinha; mas era massa ver seu gosto por pizza, comidas festivas como queijo cuia - o chamávamos Dom Ratão, a propósito dessas horas rs - e música, inclusive Roupa Nova e The Beatles...  Sim, ele gostava de cantarolar! E tinha especial afeto pelas crianças - chorava emocionado, copiosamente, aquele homem quieto e convencional, assistindo The voice kids. Além, é claro, dos seus bordões engraçados pra caramba. Ou como no dia em que fomos a um templo Mahicari, e que eu, pesquisador da religião, não conhecia; e mesmo quando ele sorria estridente em conversas com seus amigos mais chegados. Tb adorava perfumes, Globo News e, com o passar do tempo e acontecimentos, se tornou, para nosso orgulho, e desespero de muitos dos seus amigos, um anti-bolsonarista ferrenho e convicto. Da mesma forma, quando Paulão gostava de uma coisa, repetia até "furar o disco"... 

Agora, os objetos por ele utilizados solicitam em vão sua presença - seu toque e olhar, sua pressão muscular, calor corpóreo e ordenação motora únicas, essa impressão digital do corpo que faz ranhuras e morsas indeléveis nas coisas; seu mana, energia vital singular, sua aura. E todas elas, coisas, tb desaparecerão ainda cheias da esperança de que um dia voltariam a corresponder a demandas humanas, enquanto coisas úteis, necessárias e desejadas por ele, para ele.

Não tenho palavras, imagens ou procuras suficientes nessas horas. Acho que nunca saberei dizer adeus, talvez por ser homem de pouca fé. Só acredito no que ainda podemos fazer, e o adeus é  uma desistência compulsória daquilo que ainda não foi. (Num duplo sentido: do que ainda não foi completamente embora, e do que ainda não aconteceu, do que foi apenas potencial futuro). Mas eu quase sempre quero apostar que podemos fazer melhor numa próxima vez nesse mundo. Temos tudo ainda e tanto por fazer. E há remorsos. 

Escrevi noutra ocasião, "não nos culpemos por sermos feitos pra sentir... Ser de carne é também falir..." E antes que a corda arrebente, não esqueçamos do espaço em que se guardou leveza. Amanhã a tristeza há de ir.


Já nossa derradeira despedida, minha e de quem me lê, posterguemos, como se diz, todos os dias em que continuamos, até vivê-la num brevíssimo. 

Espero, sinceramente Paulão, que teu caminho de agora seja mais sereno e silencioso, porque aqui entre nós tá uma tranqueira dos diabos, esse tempo de tantas despedidas injustas, tantas dores. 

Toda memória pode ser também um tanto de esperança e imaginação para que se façam mais amenos os dias vindouros. E, se Paulão não estará conosco nesse Natal, estará por certo em nossas memórias e, num mundo melhor com certeza, para os que acreditam, como ele tanto acreditava.


Bem diria Paulo: a vida às vezes é só um "chute na canela"...

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Eu queria ser feito de música

 

"Onde há música não pode haver coisa má."

                                 Miguel de Cervantes.


A música é arte intrigante. Quando nos fixamos em um ponto, ele já não está... 

É arte do tempo. Arte heraclitiana do movimento das corredeiras e dos rios sempre "outros do mesmo", presente evanescente, revivescente incansável. Voz do impermanente. Daí vem toda sua magia comunicante com as coisas do mundo pelo mover cadenciado dos ritmos que, pelos guias da natureza, nos solicitam... Essas belas cartografias de gratuidades: da natureza das coisas; das coisas da natureza. Porque há, desde o ritmo lento do sol e da lua, dos anos e estações, até o ritmo e o som do bater do coração, das topografias, e na menstruação. Também nas asas de um inseto, beija-flor ou morcego, bem como nas divisões das folhas germinando, ou nas moléculas e fenômenos de multiplicação em escala celular. Ha ritmo nas pandemias, e há ritmo nas ondas, marés e seus marulhos, nas gotas de orvalho escorregando do telhado, o ritmo e melodia dos passos de um cão, da respiração, da marcha de um homem, formiga, elefante ou gato; do canto de um pássaro, baleia ou cigarra, do entortar pendulado de uma árvore pelo vento. Eterno retorno movente,  há ritmo até no mastigar do alimento e cariar dos dentes; música desse leva e traz das tempestades, das mortes e nascimentos. 

Mas, principalmente, há som e fúria em tantos engenhos humanos capazes de integrar as ações de um eu e um tu, realizando-se por um estranho milagre, um nós. Há música na voz e na preguiça. E, se algumas soam mais sonoras, há sempre tramas e canduras. Há música no amor entre duas pessoas que se querem, mas também entre as que se repelem. Porque há música até mesmo na guerra e terror, nos funerais e panelas, nas liturgias e litogravuras, ou na maldade opressora; no trabalho, no vai e vem do sexo de todos animais; há ritmo e música nas refeições, nos ciclos dos impérios e civilizações, nas rezas e cantos dominicais, nas giras, candomblés e carnavais. Há música nos sonhos, essa música em imagens, quadros borrados e até medonhos, de invaginações; mas também na eletricidade, panelas, ruelas, mandalas e nas velas; nos gases, beijos, trovões, sinais de trânsito, modas, nos mercados, capitais, jornais  e nos ciclos medicinais.

Não por acaso, a própria música foi a forma artística mais esquecida sob escombros e ruínas dos povos... Quem sabe o que foi a música persa, asteca, hindu, tapuia, suméria, núbia, ou iorubá de 600 ou 5.000 anos atrás? Isso atordoa e fascina meu juízo de fantasias melodiosas e estranhas aos meus ouvidos... 

E há uma música interior das profundezas do espírito, que sem dúvida também precisa ser tocada. Mas gosto mesmo é dessa galhardia gargalhada gostosa do corpo solto que, quando forma de arte, é dobradiça de mundo. Música é a única coisa quase tão intrigante quanto o silêncio; arte que comunica sem palavras ou descrições primorosas o milagre da vida em acasalamento. Os gregos acreditavam que a música era divina, e daí os pitagóricos extraíram dela toda a matemática. E quem ouve uma música, talvez tenha a solidão curada ao se encontrar no espaço comum de feras, humanos e anjos. Êita que é bom demais esse dengo nas orelhas, barulhinho bem planejado... 

Música é terapia contra a morte precipitada, e a dança, esse “mal” súbito que acomete o corpo emprenhado de afecções dormentes. No princípio não era o verbo, mas a música. A música e a dança, sua fiel escudeira... Deus primeiro escutou ritmo, acordes e melodia de criação... Depois, Deus dançou... E depois, só bem depois, muitos bilhões ou trilhões de anos luz depois, distante lá longe no beleléu após a curva do cansaço extasiado, como quem acabou de fazer amor e, já contemplando o céu povoado de pirilampos que o prostrou, o velho se ocupou em falar com voz grave, rouca e profunda... E espalhou sermões, liturgias e imprecações pelo mundo... Talvez estivesse apenas só e com saudades dos velhos tempos em seu santo ativismo publicitário...

Eu ouço música como um bicho carente que aprende a voar. Como se me tornasse luz de repente, e toda dor e dúvida fossem embora. 

Escutei um dia certa mensagem, vinha voando pelo ar: "não tenha medo, saia daí de dentro e venha brincar." Às vezes fica mais fácil se aumento o volume até silenciar a tristeza, até reverberar em corpo; outras, gosto bem baixinho que nem sibila sussurrando em meu ouvido tal qual vinho velho, longe do alvoroço.

Eu queria ser feito de música! Acho que seríamos imortais se tomássemos parte nessa sinfonia de sons tropicais. Quero que cante feliz, de olhos fechados, a música que cantávamos juntos quando eu me for; a mesma música que já não toca mais, mas que se esconde por detrás lá onde a vida perdura.