segunda-feira, 2 de novembro de 2009

RIO PARDO (Inacabada)

Deixei-me há muito em cacos de conchas
Por um troco de cansaço
E do que sobrou foi retalho marinho.
Confeccionei lisas miçangas
No caminho irisadas conchas
Sob areias marejadas.

Onde há sal que se cruze em águas
Trincadas de árvores descidas ao rio,
Salvas mornas moradas de bichos entrincheirados.
Larga-me de uma só vez a trança da esperança.

De mangues matos maciços
Coroados em mantas marés,
Nasceram pássaros beliscando-se na foz
Do antigo rio Pardo em parimento vital.
E uma gente parda nascida do sal se alevantou.
Muita raiz, areia e pedra ao derredor da úmida folia.

Nasceu também a ventania de abotoamentos comerciais.
Foi o cacau quem arquitetou
A entrada daquele edifício trágico.
E da Bahia Sul, tão JorgeAmada
Sobrou o medo e a desforra dos materiais extensos.
Tantas gentes em vencimentos de seus girassóis
Demandando a existência difusa do passado,
Atolado em sempre mais passado.
Passado, para quem o fardo nunca é demais.
Entre nexos e crassos emaranhados
De mortes, dores e cânticos petrificados.

Caranguejos cancerianos em-cordoação saem,
Enquanto minerais em marés a se depositar
Na infância vagarosa e quente ,
Desmontam quaisquer necessidades imperiosas.
Coisas anteriores ao fulcro denominado morte,
Coisas anteriores ao fulcro denominado amor.

O POÇO (Inacabada)

Visitei o poço de todas dinastias
E encontrei medos e alegrias longes acalentados.
Dos lugares visitados sem pensamentos
Já não sei se foram ou se invento
Tantas infâncias recordadas.

Uma pureza indecifrável arregimenta
O corpo pregresso a perder-se nos anos.
Imóvel, desata-me o nó do impossível
São ternas amâncias que nos realizam.

Ai deleite em retintas flores orvalhadas
Quais dolentes versos tecidos
Serão mais precisos
Que sepultos remorsos velados?

Não se percebe breve é o tempo que escapa.
Deites e não facilites demais promessas tristes.
Movem-se poesias pagãs dentro dos nomes das coisas.
Poesias perecem ao viço de religiões consagradas.

Há dias anteriores aos meus dias
E neles adormeço;
Há dias que só mágoas e cinzas;
Há dias porém entre vasos e várzeas valias
Que beijo feito olhos.

Ponteio ao cafre dos sonhos,
Nesse alpendre alquebrado de antanho
Onde fui perder-te, fulva criatura: memória
Esquecida e absurda: memória

sábado, 10 de outubro de 2009

CANÇÃO PARA O MAR

Negro nos teus olhos
Noite na minh’alma
Canção bem distante
Dai-me acalanto e faina

Um cantador canta o vento
Canta o tempo
Um cantador canta o mar

O mar...
Não tem medo de achar o vento...
Não tem medo de achar o tempo...
Não tem medo de achar luar...

O mar...
Não tem medo de achar o mar...

PORTO ALEGRE (Uma canção)

O que me faz viver assim
Como um fio de desmedida paixão...
Porto alegre vem...

Me espalha em vestígio insonte
Me traga no nervo da noite
Como eclipse final
Que abriga o sol escassa e despe
A lua em pura solidão fatal

Sem ter ninguém pra contemplar
Foge o azul do céu e eu choro defronte
Porto alegre vai...

A brisa sopra a face encosta a pele posta
Delatam outra dimensão
Reitera e gasta o meu viver
Em promessas loucas
Canto o que não sou eu...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

GRILOS (À Mário Quintana)

No dia de Todos os Sonhos, quando deitares na grama
Em disposição óbvia e precisa, assim,
Feito um grilo, apenas, e sonhares um mundo em tons de verde,
E saboreares pequenas graminhas, e o orvalho depositado
Nas extremidades, e estiveres sinceramente
Entre muitos outros companheiros grilinhos,
Passeando e observando os verdes mais saborosos,
Só no dia em que deste modo amares,
É que desejarás e saberás mais que tudo, ser mais um,
Desejarás mais que tudo ser comum e estar só.

HOJE ACORDEI PEQUENO

Hoje acordei pequeno
Até conversar com besouros.
Acreditando-me herdeiro
Da menor dentre as raças existentes, de repente
Caber tornou-se uma palavra tola.
Os pigmeus da selva com suas flechas
Os silfos e os sons das flautas
Não ameaçarão meu etnocentrismo
Nem que dos livros fundamentais de história
Apague-se definitivamente a palavra barbarismo.
Que todos os reinos derrotados se reabilitem!
Que todos repliquem à débâncle da memória!
Hoje meu primitivismo acentuou-se no corpo
De tão pequeno.
Mas não pude pretender a morte do estranho,
E desgostaram-me pálidas paridades.
Obriga-me, pequenamente,
Um civilismo endêmico que já não protege
E, pateticamente, até a ferocidade
Histérica dos chiuauas me recolhe.
Ademais, quem a essa hora será menor que eu?
Os menores homens do mundo
Também têm seus paradoxos:
Querem-me próximo e distante,
E sabem saltar muito.
Então comprei um fusca e pipocas,
Redecorei o espaço com ternos relicários
Comprometendo-me todas as artes minimalistas do planeta.
E, se os vãos da casa agigantam-se e me excedem,
Sorrio vitorioso:
As quinas assassinas dos móveis espalhados
Já não maceram meus joelhos.
(Poderia talvez regatear taxas módicas em serviços ao meu caso?)
(Entrarei para o livro dos recordes?)
Talvez sejamos todos gado
Já que do gado, tudo se aproveita.
Mas, logo me aflijo:
As obras públicas, os objetos da indústria,
Máquinas, vestimentas
As comodidades e alimentos
Hoje não contemplarão minhas pequenas necessidades.
Fui a uma loja de artigos infantis e,
Desde que acordei, tem sido esse estar na ponta dos pés
Para crescer sem fazer barulhos.

sábado, 3 de outubro de 2009

________A ESTRELA DE ALGIVAR________

*
O que aqui se irá lembrar
Se deu há muito numa terra
Num reino belo e distante
Ao qual chamavam Algivar.
Tempo em que tudo nascia
Mais dourado e radiante
Em perenal desabrochar.

Quis o destino que um mistério
Desafiasse aquela gente.
Pois lá quedara uma estrela rara
Que ao negro céu brilhava inteira,
Mas que ao chão era semente
Pedra negra e atraente.

Todos então em alvoroço
Buscaram o tino e a valentia,
Que havia em cada coração
De toda gente que ali nascia.
Pra que roubassem da pedra-estrela
Os segredos que ela escondia.

Como de praxe nessas terras
Rainhas e reis julgam e ordenam,
Disse a rainha: a cada um,
Conforme ofício e coragem,
Que se desdobre para encontrar
A tradução desta imagem!

Como de praxe também sucede,
Foram os valentes a se arriscar.
Assim os bravos combatentes
Que nem das almas são tementes,
Tentaram em vão despedaçar
A dura estrela de Algivar.

Com mil alfanjes e correntes,
Cetros, machados e setas ardentes.
Golpearam os flancos e o centro,
Incendiaram e esmurraram,
Usaram aríetes e catapultas
E todas armas que puderam usar.

Já desgastados, disse a rainha:
Parem todos de insistir!
Ficava tarde e, a partir dali,
Começariam os ferramenteiros
Que na mais perfeita ordem
Se empenharam sem distrair.

Mediram, riscaram, olharam,
Tudo conforme o figurino.
Um trazia régua, o outro compasso,
Brandiam canetas riscando o espaço.
Uns, pernas compridas, uns mãos robustas
E, até olhos, de amplidão absoluta.

Mas para evitar confusão
Quis a rainha que ali houvesse,
Alguém de uma boca enorme
Bem aplicado em só mandar.
Então trouxeram a maior boca,
Que habitava em Algivar.

Mal começara a dura labuta,
E cada um se restringia
A só falar daquela pedra
Sobre o pedaço que lhe cabia.
Mas pra explicar a pedra inteira
Nem quem mandava conseguia.

Pois quem ficou com a ala norte,
Sobre a sul nada sabia.
E que do centro do monólito
Vazava um gás insólito,
Que só um nariz enorme podia
Daquele odor ter boa valia.

E quem pelo nariz não conseguia
Começava logo a se confundir.
Assim também eram os outros:
Os de mãos fortes, por exemplo,
Tocavam a pedra de um jeito
Que ninguém nunca iria conseguir.

Os dos olhos viam coisas,
Das pernas acertavam o passo.
Das orelhas, estômago, pés...
Meio àquela aflição de infiéis
As mãos brutas surravam os pés,
Que distraídos pisavam os olhos,
Que choravam bravas torrentes,
Que alagavam os pulmões,
Que prendiam avaros, o ar,
Que o nariz não iria encontrar.
E mais ninguém se entendia
Na babel de Algivar.

Ah, dessa vez nem precisou
A rainha nada, nadinha mandar,
Pois cada um por si tratou
De fugir sem se explicar.
Restando só o vil feitor
Que era bem pago pra só mandar.

Mas como então ficou sozinho
Sem ter mais com quem gritar,
Tratou também de ir sozinho
Tomando logo o seu caminho,
Deixando a oportunidade
A quem quisesse se arriscar.

Vem! Disse a elegante rainha,
Chamando um homem quase sisudo,
Ao qual tomavam por sábio
Por mostrar-se ele tão hábil,
Em falar desembaraçado
Sobre coisas de todo o mundo.

Compenetrado se debruçava
Com propriedade notável.
Tão bem ele se articulava,
Que o mais versado dos versados
Caiu em perplexo estado,
Tamanho era o seu professar.

Ele todo, toda a pedra olhou,
Com olhos, boca, e suas pernas.
Pedaço a pedaço, nada ficou.
Nem um só milímetro nela,
Ou nada que dela exalasse
À sua sagacidade escapou.

O povo se entreolhando,
A ala nobre a se espantar,
Pois tinham enfim encontrado
Depois de tanto pelejar,
Aquele que era o mais sábio
Dentre todos em Algivar.

Mas quando foi requisitado
A mostrar o que descobria,
Disse que não havia jeito
De contar tudo que via,
A não ser que todos outros
Viessem a ser como ele um dia.

E que ele mesmo muito teria,
Que se ater por bem mais tempo,
Sem descanso e sem alento.
E nem mesmo uma vida inteira
Por mais que longa e proveitosa,
Satisfaria tamanho intento.

De modo que a pergunta feita,
Foi de tal risco enigmática,
Que a resposta que se mostrou
Era tão larga e inconclusa,
Que o pobre sábio, desesperado,
Não compreendeu o que encontrou.

Ficou o povo decepcionado,
A corja toda quis assistir,
Aquele que era quase santo
Por seu esforço em existir,
Prostrar-se mártir derrotado
Por não ser feito para mentir.

E a rainha, em tom de escárnio,
Pediu ao sábio que fosse embora,
Embora achasse que à tal hora
Nenhum outro mais poderia
Desvendar naquela pedra
Todos os signos do porvir.

Já num profundo desespero
Fez a rainha que adentrassem,
Dois homens que em silêncio
Vinham trazer sua mensagem.
Mas como estavam ao fim da fila
Tinham que ter bem mais coragem.

Pois se acaso a aflição
Do povo todo em confusão
Ao cabo não silenciasse,
Terminaria a ocasião
E os dois em meio à multidão,
Seriam O Mal em rubras faces.

Com incomum serenidade
Sentaram então por sobre a pedra.
Tão carregados de paixão,
Que quase não se distinguia
Quem era pedra, quem era o homem,
Tão crua a participação.

E cada um fez fluir da pedra
Maravilhas em turbilhão,
Como se a estrela fosse a mãe
Do universo em explosão,
Parindo o mundo num segundo
Sem remorso, ou aflição.

E cada um bem extraía
O que mandasse a profissão:
Um, falando com santos e anjos,
O outro, sereias e canção.
Um sentiu uma força estranha
Que já não tinha explicação:
Um, poeta louco, cancioneiro,
O outro, era santo de coração.

E todas essas verdades duras
Inscritas numa confissão,
Faziam a dor de trajetórias
Que inundavam de emoção.
E cada um era uma história
Que espantava a solidão.

Vinham musas que cantavam
Pintando a saga da paixão...
E os bosques verdejaram
Na vida que semeou a vida,
No rosto que encantou o rosto,
Verbo sano, sem explicação.

Dosséis, casas, estrelas mil...
Flores, mistérios e brasões...
Jorravam num passo febril
Amuletos, trevas e trovões...
E o riso que nunca sorriu
Desabrochou cem mil quarteirões...

E as galáxias semearam as veias...
As teias libertaram abelhas...
A natureza viva nos remia...
E a gente toda aplaudia...
Chorava, amava e ria,
Pois que aqueles dois simples homens
Lhes ofertavam o reencantar.

E só quem soube atentar
Pôde então compreender,
Que a pedra também roubava
O que em cada um fazia ser.
E enquanto os dois sangravam a pedra
Eram tragados sem perceber.

Pouco a pouco então se fez
O milagre da transmutação.
Num gesto pleno de avidez
Mas também de dor e solidão,
A pedra e os homens tornavam-se três
Mas sendo pra sempre um só coração.

Até que ao fim, quase exaustos,
Celaram a nobre comunhão:
Do homem que virou estrela-pedra,
Da pedra-estrela que virou homem-chão.
E ainda hoje a pedra-homem
Pode ser vista lá em Algivar.
Mas dos dois sábios, o que se sabe,
É que envoltos em densas brumas
Tornaram-se dois astros candentes,
Subindo aos céus pra nos guardar:
Um deles soprando poemas,
O outro a nos abençoar...

( )


Alguém já disse que tentar explicar nossa arte - sem aqui entrar no mérito do que é ou não é arte - seria um empreendimento perdido, já que, se precisamos explicar, é por que o que se fez não está bom, ou pronto pra ser mostrado. Muito bem, pode ser o caso, mas, teimo aqui em algumas explicações, expiações e espicações, sem entrar diretamente no conteúdo do texto... Pra começar, fica fácil observar o quanto a apresentação destoa dos outros em formato e tamanho. Esse texto, uma pequena narrativa, era pra ser voltado a um público infantil - e enriquecido/combinado com imagens. Mas considerei que ele ficou um pouco pesado pra esse público, e não sei se poderia se encaixar como texto geracional qualquer - uma vez que pudesse ser julgado infantilizante, morno ou boboca pelos adolescentes. Não subestimo de jeito nenhum a capacidade de compreensão ou a sensibilidade das crianças, nada disso, digo o contrário. Acho, é que há linguagens das infâncias difíceis pra maioria de nós, senti que penei nessas dificuldades. Talvez seja um texto pra gente mais velha mesmo, mas que não se sente completamente madura, que nem eu!!! E, claro, consola-me saber que tem um monte de gente assim mundo afora... Também se trata, claro, desse "gênero", o cordel. Melhor dizendo, minha versão atravessadíssima dos cordéis - e com tantas vacilações rítmicas que denunciam um debutante desengonçado sem a devida "mãnha".
Abraços calorosos!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

LANTERNA IMPROVISADA EM ACAMPAMENTO

Uma vela arde pequena
Dentro da garrafa plástica.
Solidão do tamanho do mundo que arde em mim.
A garrafa se encolhe,
A vela se apaga.
Enquanto a noite segue silenciosa
Realizando seu trabalho...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

AS CHAVES

Imaginei um tempo de muros transitórios
Feito fumos, de recantos abertos à visitação.
Casas e praças habitadas por pessoas sem portas havia,
Senão, teias gordas de bichos embaraçação.

Fui à curva do rio catar um segredo,
Catei.
Catei mais outro,
E outro ainda.
Gastei a curva!
Deus perdoe!
Deus, que me deu essa fronte,
Ou Deus que é só um sem nome?

Permanecimento inquieto...
Gastura de meu lirismo
E ainda permanecimento inquieto.

Derrubado o farto medo sentido,
Perigo é o defronte à própria feiúra.
Há de se tomar um pequeno pote
E dar de beber ao rés do chão.
Porque no chão é que se dobra a valentia
E a gente sabe, de um saber que não se consome,
Coisas de mortes pretéritas,
Mortes além,
Mortes, mesmo que nem
Longes mortes anunciadas.

Quando criança desgostavam-me densas demografias.
Queria diluir-me para sempre, para sempre...
Brisa por que movente...
Para que nunca mais me vissem.

O telefone lá de casa tocou diferente
De quando ficou óbvio falar por um fio que se ouve.
Meu pai atendeu na sala de estar tudo bem.
Naquela casa quieta como me lembro.
Do outro lado ofereciam-se chaves e bugigangas,
“Chaves para que?” - perguntou meu pai.
“Não temos cartão de crédito e, daí pra dentro,
Já estamos fartos de bugigangas!”

No algo envergado para o sempre,
Fiquei folha engordurada em seiva de noite vencida.
Cresci!
Ou será não ter crescido,
Só, me percebido.
Nascido de susto
Qual desmembrado galho.

Grassando em arte de futucar,
Amanheci-me na beira do estrago
Qui! Cheirando à folha e brisa,
Lendo livro velho de bugigangas.

E o meu pai já não atendia o telefone lá de casa

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O RISO DO MEU AMOR

Quem não quer o riso do meu amor?
Lindo demais em duas covinhas
Que não apenas acaso orgânico, mas consequência plástica
De risismos longe praticados.
E, admito, é com algum ciúme,
Que o receituo aos riso-necessitados.

Evento capaz de subverter
Qualquer metafísica que pusermos nas vielas
E romper as causalidades mais prudentes:
Sorrio se te riso!
Rindo, junto contigo.

Compreendamos: o riso do nosso amor
Faz cócegas dengosas
Na região occiptal da gente.
Procede assim: Esticando a saúde do são,
Reestabelecendo a saúde do doente.
Se há fraqueza, protege,
Se tristeza, adormece,
Além de, cuidadosamente, recodimentar
Até os pratos que detestamos.
Riso de amor é armadura fofíssima.

Agora nos enlaçamos, pronto!
Até fazer voz de bichinho e doces apelidamentos
Mas por favor meu amor,
Não permita que seu riso se desvirtue ou engane
No auto-engrandecimento de turvas maturidades.

Não sorrido, insorrido, dessorrido,
Tudo isso é bem mais grave que a tristeza...
E, exceto Sílvio Santos,
Todo mundo fica triste de vez em quando...
Mas sabotar essa valsa convidante
Em seu rosto seria pena.
E o amor peleja além da pena,
Inventando, aparentemente inerte,
O tempo amoroso da cantiga.

PERDÃO

Em minhas mãos você depositou meas-culpas
Como sempre eu fiquei calado
E assim perdoamos

Não creia na palidez, meu amor.
A palidez confunde
E o perdão foi só que a saudade venceu
Semelhante a um susto

sábado, 19 de setembro de 2009

MALVADA MULHER

.
Loucos foram os dias em que me hospedei sob teus cuidados...

Sendo cravo o que sobrara daquele pote alucinante,
E não os ferrões da inoportuna formiga,
Aceito novamente outro bocado dos prazeres,
Feito os que me tens ofertado com excitação crescente,
Por todos os cômodos da casa e a qualquer hora do dia
Em que me procuras, incansável, diligente.
E eu, excitando-me da mesma forma, sou-te
Sempre mais grato e servil aos teus encantos.

Acepipe selvagem e sumarento,
Que sentada, satânica e descaradamente
A me fitar, descansava por entre as coxas,
Observando atentamente minhas emoções e sentimentos
Nos mais íntimos gestos.

Não! Murmuro a mim mesmo.
Quero parar, preciso parar, pois sou homem comprometido...
Mas não sei mais parar...
Distanciar-me de ti e dos prazeres fáceis
Nascidos de tuas habilidosas mãos...
Cobiço nevrálgico;
Cobiço fébril;
Sensualidade de tantos aromas luxurianates;
Explôdo!
Mordo e devoro, chegando mesmo às regiões mais molhadas.
E continuo, cobiçando ainda mais,
Com olhos, língua, boca à dentro.
Após tudo ter sido consumado, já, completamente vencido,
Deixo escapar um último gemido de prazer...

Sinto corroídas minhas forças, quero inexistir.
A razão reclama, mas o corpo diz: volta!
Jaz incapaz de seguir.
Pérfida mulher, o que me deste,
Desde o dia em que cheguei até a hora da partida?
O que fizeste comigo, ao ponto de tornar-me tão submisso e amolecido?
Confesso.
Sei muito bem que com isso, faltei gravemente
Para com aquela a quem entreguei minhas maiores esperanças.
(Por ela, em segredo, havia feito até promessas e simpatias)

Recaindo, de exceção em exceção, creio-me vil e sem caráter,
Descumpridor dos valores mais elevados e duradouros
Da civilização que partilho.
Tudo perdido...
Já ouço os amigos e parentes, sobretudo as mulheres, batendo-me à porta:
Fraco! Farsante! Traidor!
Sim, sinto-me sujo, indigno...

Pois tu, insistentemente, e eu, sem as vergonhas devidas
A tudo cedi em acordo com tua doce acolhida.
Grato, perdido, atormentado, não resisto ou decepciono
Aos teus achegos e rendo-me - só mais uma vez...
Mas sempre é "só mais uma vez..."

E assim foi, com uma tal Dona Amália,
Fabulosa cozinheira maldita!
Faminto, devorei...
A sua gostosa;
A sua...
Irresistível compota de goiaba!
E tudo o mais em sua fascinante doceria.
Mas comendo-a, novamente engordei e, engordando,
Deixo traída, maculada, toda sofrida a minha frágil... Dieta!


Inspirado em Drummond, em seu texto sobre o pernilongo - outro tema com o qual, aliás, me identifico bastante...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

POESIA NEGATIVA

Não quero o mundo certo das graças alcançadas,
O mundo vertical que esgota o corpo,
E faz do oposto um inimigo.
(Sem que mesmo, ele desconfie da nossa má amizade)
Mundo cifrado ao mínimo detalhe,
Das entrelinhas ausentes de ambivalência.
Já que no ato vicário das escrivaninhas e falatórios,
Perdemos facilmente o gosto de pensar duplamente,
Triplamente, quintuplamente até a milésima inessência.

Não serei mais ao golpe dos movimentos retos
Num tabuleiro igualmente simétrico, Cosmo do xeque mate.
Será possível que a ninguém ocorra derrubar o tabuleiro!?
Não poderei viver inteiramente humano
Sem antes desmembrar-me
Dessa carne das democracias convalescentes,
Caducas!
Rejeito o mundo recitado, requintado,
Reeditado.
Falência "realista", "necessária"?
Das promessas do que fomos outrora!?

Não quero a magnitude dos acordos possíveis,
Substituindo os afetos não doados.
E nenhuma agrimensura acatarei em meu território.
Dane-se! Sequer possuo um território ou reclamo por ele.

Também não quero o mundo das profecias auto-realizadas,
E ter de carregar o fardo de buscá-las
Em retornos renitentes, ainda mais se inesperam.
Só pelo gosto esperto de dizer:
"Ah, viram como eu estava certo?"
Não, eu não quero estar certo!
E já não há tempo para consternamentos
Quando tantos morrem ou nos traem.

Não quero os incapazes de trair,
Enterro hoje a fidelidade cega da sacristia, da corte,
Com toda sua moralidade de coroinha.
Fidelidade que reclama o homicídio da dignidade,
Que reivindica estoques públicos
De cânones, cacoêtes, puxa-sacos e retratações.
Não quero a ofegância dos cavalos de corrida,
Galopando gloriosos, rivalizando em façanhas corrosivas.
Nem esse mundo de recompensas futuras
Por benefícios à comunidade...
E aquele prazer em dizer ou saber:
"Ah, basta uma ligação minha, e fulaninho... já era!"
Não quero ser mais um nó poeirento nesse mundo
Das eternas correias de servilismo humano.

Sem que nos déssemos conta...
Perdemos um amigo, e pra sempre...
O segundo passo, quem sabe, será sentir que não houve perda,
Ou que ela foi pífia em nossa tanática taxonomia.
O terceiro: seguir perdendo muitos mais, por descuido...

Não! Não quero a roupa sempre nova,
A pompa, sapato impecável e o medo do desterro.
Porque de mim mesmo fui cedo desterrado.
Quero menos ainda a confirmação complacente dos amigos,
Os atentados obscenos e repetidos
Ao direito do devanear, o direito à dança.
Maturidade é coisa indefinível
Sem lastro nos honorários que empenhamos,
Mas o amor, este, apenas será pelo devaneio.
Eis minha única positividade!

Nem mesmo um lugar entre as minorias oprimidas
Do planeta, eu tive, ou me foi viável.
Não me coube qualquer rótulo politicamente válido,
Não me coube a franquia das identidades.
Também não quero os que dizem por aí
Que se preocupam comigo, que na penumbra perguntam,
Alheios, como estou... São do maior perigo...
Vivem das alegrias imaginadas
De uma amizade que nunca se realizou ou será realizada.
Sempre que posso, poupo-me dessas espécies.

Não quero o mundo dos que imitam ou temem serem imitados,
Dos que economizam sentimentos,
Ou crêem que experiência é manual certo para conselhos.
Na contabilidade engordurada dos encontros,
Não quero o mundo dos que morrem todos os dias
Por precipitamento.
Não, não quero essa vida de intermináveis coveniências,
Até porque, nela eu falhei, falhei completamente

Não! Não! Não! Não! E Não!
Quantas vezes me for preciso negarei:
Adolescente, narcísico, egóico, insubordinado!
Não quero, não posso, não gosto ou espero!
Carregar a bagagem morta do não tentado,
Do perdido, do só temido por não amor,
Que o tempo querido, mesmo ferido, esse me deixou.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

TARDE COM MEUS PRIMOS

Naquela tarde jogamos WAR e comemos farofa no almôço - farofa de calabresa e ovos fritos! Porque minha tia não estava em casa... Depois tive dor de estômago e minha vó passou-nos um pito, pelo que me lembro. Éramos eu e meus primos mais velhos: Augusto, Max e Eneida. E eu achava Eneida bonita. Com nove anos, era o mascote entre eles, e me exibia falando coisas da Segunda Guerra; não sei onde tinha aprendido aquelas coisas. Eu também era grande pra idade, eles me mediram com a fita de costura de minha tia. Sentia que aquele mundo era divertido, e me acreditei acolhido, único e genial.

A casa dos meus primos era diferente, eu sabia... Tinha um frescor de arte e tudo respirava um tipo de esperança na vida. Arte pelos cantos da casa, arte nas panelas e paredes, nos quadros, arte na cozinha de minha tia Mariinha. Arte nas vidraças pintadas e no violão, que quase nunca era tocado - mas era uma pista bonita pra mim. Foi lá que aprendi a pintar o mar, o sol, três gaivotas e uns coqueiros. Sempre fui mau com desenhos e pinturas, e sabia que se acertasse aquilo, qualquer um me entenderia. As vezes não sabemos pra onde fomos, as vezes não sabemos pra onde foram nossos primos... Todos saímos de nossos sótons,

Jogar WAR já não é divertido...

E não estamos mais pra brincadeiras...

CANAVIEIRAS (Ao meu pai e avós - esses últimos que já se foram)

Ah Canavieiras, permanecera em minha memória
Sem que nada ficasse recôndito.
Conferiu-me um torrão de luz
E é por ele que te resgato primitiva,
Viço de várzea, dengosa ribeirinha.

Minha nudez, afora indecifrável,
Ali se encaminhava serenamente.
Meu contemplamento,
Verbo de vento vezes vago e impróprio,
Por um instante redimia-se.
Tudo parecia bom
Num espaço modesto mas inteiriço.

Evoco agora a tua doçura de menina.
Distante das turbulências de adolescente,
Reaprendo o amor do tempo lento da infância.
Essa urbanidade perfumada que é tua,
Simples e permanente.
Carne de carambola amanhecendo-se de orvalhamento,
Sumarências de frutas e mariscagens,
Aromas pelas árvores e seres em mutação.

Periquitos revoavam entre lôdos-mangues à tardezinha,
E à noite, quem sabe, se recolheram nas estrelas.
Eu, abandonado ao seu território,
Aprendia coisas que não se esquece, como:
Andar de bicicleta, nadar e, mais tarde, beijar.

Com isso, demitia-me provisoriamente da sensação
De que meu corpo padecia de qualquer vital incompetência.
(Sensação, é verdade, que ainda hoje me pede poesias)
Mas aprendi que beijos, bicicletas e águas brotam doçura.
E talvez, porque te chamam Princesa
Soube beijar-te com o decoro e doçura devidos,
Mas cheio dos desejos e sonhos de adolescente.

A primalhada toda, aqueles novos íntimos
Chamados parentes...
Tuas meninas, tuas praias, teus jardins...
Eram ocasiões de ventura
Para um corpo mal educado
Nas grandes cidades assoberbadas.
(E como a gente brincava!)

Enquanto minha avó com inabalável temperança
Testava o valor de sua culinária,
E cuidava, impenetrável, de todos nós.

ILHA FORMOSA

Ilha Formosa, torrão fecundo
Pedaço do mundo onde Deus veraneou.
Tardes amenas, noites serenas,
Manhãs morenas de esplendor.

Quando chega a alvorada,
A passarada põe-se a cantar.
Saudoso núncio, canto do galo,
E a estrela d'alva a despertar.


Poesia de autoria do meu avô Aurino Costa - feita em homenagem a sua terrinha, a Ilha Formosa, onde viveu boa parte dos seus últimos anos, na cidade de Canavieiras, sul da Bahia.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

PARENTADA

Carambola, côco, cajú, caranguêjo
Jambo, jaca, janeiro.
Manga, mamão, fruta-pão, mosquêro
Tem doce de goiaba, tem chocolate,
Tem abafa-banca e abacateiro.
Quando criança, indo de casa em casa,
Descobria uma ancestralidade curiosa:
Meus entes cheiravam à comida.

A FELICIDADE

Me traga felicidade em 2 L - com limão e gêlo, por favor!
Será que vem bem gelada?
Ah, não esqueça, em KS;
Nasci nos 70 e não gosto de garrafa PET.
Ai meu deus, quêde a felicidade que não chega!?
Já não se acha na mercearia ou se encomenda...
Faz tempo eu quase bebi a felicidade toda num gole
Debaixo do jambeiro abraçado com Amarina.
A felicidade me deixou, dormindo.

domingo, 13 de setembro de 2009

CARTA AOS QUE PASSAM

Quando eu morrer gostaria de ter sido apenas
Uma criança que foi à padaria,
E que no caminho de volta
Sabia o quanto era bom
Comer o miolo por dentro do pão.

Em dia de enterro, de gente grande,
Brinquei se houvesse de brincar.
E não entendia porque os viventes
Quase morriam e choravam tanto.
Não disseram que havia um deus e que ele era bom?

Quando eu morrer não venham contar meu heroísmo,
Nem o lirismo dos meus poemas e amores.
Saibam apenas que vivi,
E não sei se foram mais, os dias felizes ou os infelizes.
Mas assisti a correria do meu tempo
E pensava ser louco o sentir prazer na exaustão humana.
Mas recebi o amor... Mas percebi o amor... E gostei... E retribuí...

Se quiserem, chorem, chorem muito.
Mas por favor, aos que se lamentam,
Não gastem seu tempo com bobagens.
Se quiserem amar-me amem-me agora,
E abracem meu corpo e chorem comigo.
Quando eu já estiver morto,
Abracem... Um cão, um gato, uma árvore,
Ou um bife mal passado.

Como todo homem,
Hesitei ante uma porta.
Como todo homem,
Fiz parecer fácil a solução para todos os problemas dos outros.
Como todo homem,
Esperei o alguém que solucionasse todos os meus problemas.
Como todo homem,
Habitei o extraordinário
E realizei cotidianas profecias.

Ora, a eletrodinâmica, a genética e a quântica,
Não me convenceram de que tinham a resposta.
Amanhã as ciências de hoje e as de ontem,
Assemelhar-se-ão todas a um equívoco.
E eu, que parecerei?
E eu, que padecerei?
Ora, não tenho respostas.

Quando eu morrer saibam
Que aprendi a nadar e andar de bicicleta
Com alguém em quem confiava.
E a desconfiar das promessas
De felicidade fácil que me realizaram.
E tive uma namorada que eu gostava de apertar a mão.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

MANHATTAN, 11 DE SETEMBRO

Setembro nem começou, tentava ficar primavera.
Mais ao norte era outono e as folhas caíam,
Provando haver rudeza nos tópicos climáticos.
E precisou um avião para começar.
Precisou um quase antiespanto,
Espanto dissimulado, aguado, maldito.
Provando que também na guerra
Vale a linguagem da simplicidade.

Novamente arrastava-se o pendão dos vencidos,
Bíblicos, dos tempos daqueles profetas malditos,
Dos tempos de Elias.
Findo o espetáculo,
Olhar para o céu do oriente sem ter oriente.

Caixas de ressoâsias aprontaram-se para explodir...
Mas como se fosse uma festa.
Enfeitara-se a estrada em pantomima e pirotecnia.
Apertaram-se os dedos devotos, ascenderam-se os faróis.
Entre pára-quedas, bolsas e bombas imaginadas,
Tão numerosas quanto o rosto do inimigo impossível.
Dançava-se a guerra
De clãs em chãos inchados,
Ao futuro nebuloso rubro de ruminâncias.

Corações de carne desabaram mais ligeiro
Que a lividez fantasmal do concreto.
Manhattan, ilha PreFerida de Hollywood
Albergou instantaneamente a histeria dos seus
Filhos pródigos, medrosos, raivosos, carentes.
E suas mães pavorosas,
Cegas e mudas em seu pranto.

Alguma gente culta entre os cantos do mundo
Sofria duma obscura histeria de prazer e terror.
E depois de ferido o grande opressor,
Talvez tenham dito para si:
"Não me culpo, não faço bolsas nem guerras!"
E assim se pôde sentir vingado e compadecido,
Pelos irmãos e inimigos.
Todos iguais em seu ocultamento
De arte de vanguarda e decadência.

Era preciso nunca ter estado lá
Para saber o que aconteceu.
Como num script familiar e todo limpo, mas sem final feliz.
Ah, Manhattan... Ilha de sonho e de sombra
Num pequeníssimo mar.
Acabaram-se os grandes mares cheios de fantasmas e mistérios.
Apenas o concreto de bronze vencido,
Medonho, arruinado,
Gigantesco monólito.

E era estranho que todo mundo soubesse
Que a vida persegue um fio de instinto.
Silêncio que fala à carne…
Dia de sol nascido d’outro jeito
Todos parecendo singularmente sós.

A vacuidade antianalítica da TV glosava,
Nervosa de excitamento inchava-se mais realista que o rei.
Certa de que aquela guerra seria dela,
Declarada e ganha, arregimentada para ela... Por ela...
(E a baixíssimos custos com cenários)

Não mais 1964, Vietnã, Pinochet,
Não mais o coro de tantos africanos, latinos,
De tantos mundialmente espoliados
Remexendo em nossas vísceras.
Quantos holocaustos serão esquecidos
Para que outros ardam prósperos?

Agora mais me apavora toda a certeza,
Dedicada, repetida e retocada: vai bom soldado!
Vai cowboy, vai pistoleiro, bravo ianque,
Matar lobos em pele de cordeiro,
Extirpar a barbárie, devolver a paz.

A palavra barbárie é um soco no fraco.
Lado imundo da cancela
Em que se pega bicho de porco, bicho de pé.
Bárbaro esse onírico litorâneo,
Afogado, erguido, odiado.

E depois de tantos mortos amordaçados,
Enterrados pelos que lhes são próprios,
Carece aos vivos enterrar a covardia...



OBS: Texto escrito originalmente em 11/09/2001, e recentemente modificado. Também, não ouvindo o conselho de Drummond, de que não se deve fazer poesia sobre acontecimentos... Mas continuo pensando que ele tinha e tem razão...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

NOITE

Noite... Escassa noite arredia,
Noite vária inconsistente.
Noite, noite, noite ...

Alquebrada noite reticente,
Contraditória, luminosa.
Valente noite em prumo.

Noite fogosa e quente.
Irrealizada noite apressada,
Apenas, noite sem dentes.

FUTUCAR

Existem palavras curiosas:
Futucar, por exemplo.
Não se aplica a quem observa distante,
Nem a quem anseia regular o ritmo do mundo.
Futucar é uma palavra distraída
Que se apruma, vagarosamente afagada.

VOLUMES

Todo corpo é topografia singular
merecedora de tratados.
Muito em breve não haverá
desempregados entre os que amam avolumações.

MEU MAR

O mar que encontro não é grande, imponente
Esse mar lírico da ventura humana.
Meu mar sem heróis é pequenino,
E fala apenas de um tocar à margem,
Banhar meio acanhado
Defronte à horizontes mais extensos.

É futucar de dentro da canoa
Entre veios e lencóis de achegados rios
Pelo deslizar da mão numa fragilidade miúda.
Mar ausente de monstros
Ou precipícios medievos.
Mar inútil, carente de perigos.

Uma breve excitação
Na amplidão ensolarada,
Por entre paisagens irisadas.
Doce é o mar que me acompanha.
E eu sou para dentro, demais.
Mas me consola.

Gostaria de dividir meu mar
Mas ele se quer indiviso.

Meu mar, demografia modesta
Dos castelos de areia,
É desajuste sem feridas
Porque fecunda vacância.
Mar que é só a felicidade
Daquelas férias de escola.

sábado, 5 de setembro de 2009

MAGIA

Continuamos seres mágicos:
Palavras ainda matam e adoecem!

EXTRAVIO

Vou-me para um lugar que não procuro,
Eu sem destino, tu sem destino,
Esqueçamos por hora a morte.
Nesse lugar nos entendemos.
("Nesse lugar" chamado "texto")

Cumpro meus dias,
Cumpramos os nossos,
Pré-destinados às coisas vãs.
Com ou sem ganâncias, entrelamentos
Há nesse arquipélago sob estrelas.

Já não consta o bater das horas,
Os currículos, a esperança que estava atenta
Entre os invisíveis, videntes da faxinaria.
E também para eles, já não consola
Fazer do fracasso um novo presbitério.

Olhos de aranha, olhos de insetos
Olhos negros de vermes contra vermífugos.
O que somos?
Ah, presságios humanos,
Cortejai também a estiagem.

As piruetas exercitam
Um órgão vital historicamente mal observado.
Vital e fantástico propenso.
Mais complexas que a virtude
Têm sido as vitrines. Esse mundo...
Mudou subitamente!
E eu que esperei acordar
E encontrar intacto o mundo de ontem.
Quebrei a cara.

Há uma espécie de crueza incontida,
Encruzilhada que a poesia confessa.
Assim foi: os seres alastraram-se
Mundo à fora mediante a celeridade de suas patas.

Objetos e mais objetos,
Por vezes intangíveis se comunicam
Em nossas malhas férreas de errância.
E fitamos através do humano desconhecer
Com as palavras, contudo, copulamos.

TRISTE É O ESQUECIMENTO

Triste é o esquecimento,
Pois que furta aos nossos pés o chão,
E sem chão não tenho por que voar.
Vôo para bem longe,
Mas bem longe é também um lugar,
E logo que lá chegar,
Novamente me perderei,
Para que à diante eu possa...

Comer com a fome de sempre a feijoada lá de casa!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

NASCIDO PARA TOCAR - CORPO (Canção a Hendrix)

Quando toco minha guitarra,
É a vocês que eu toco:
Vocês em sua porção mais primária,
Em sua instância mais aguda.
Não sua alma, mas seu corpo.

No passado os homens sonhavam com anjos
E criavam metafísicas:
Eu toco corpo!
E até o prover destino
Estávamos de acordo que eu não valeria pra nada.
Foi quando descobri uma coisa à fazer:
Simplesmente, por pra fora o cox dormente
E descabaçar!

Mas se agora querem insistir que toquei almas,
Direi que não toquei almas de palha,
Ou almas que não sustentam a danação do corpo e desencarnam.
Mas as de carne, sangue, ossos, pálpebras e córregos...

Esqueçam a profundidade da alma.
O corpo transgride a vaidade,
O corpo é o que rasga a roupa.

Bem aventurados os que dançam,
Pois deles será o reino do chão!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

ROMÂNTICO

Alço o espaço dos seres imaginados,
Desde miméticos arcos melancólicos.
Para que o mundo se aconteça,
Há quem pareça um acorde ideal.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

VENTUROSO AVESSO

Aporta e descansa em meu corpo
Que ele é náufrago e mensageiro
De um amor ainda inexistente.

Beija-me simplesmente,
À lembrança dum amor surdo e sem vaidade,
Que desconhece saciedade e esperança.

Aporto e descanso em teu corpo,
Breve estalo, amanhecido e profanado,
Convexo à cupidez de um crime.

Trago do que sou, vasto e obscuro,
Apuro ao teu cântico e sussurro,
Por entre beijos, pálpebras... teu corpo...

Ah, este cravo do que sou, vasto e obscuro,
Aprende afora qual ser livre descansado,
Disposto à doçura de amar-te delicadamente.

MAU ALGÚRIO

Ontem ví uma corujinha pousada, no chão,
Me olhava de um jeito estranho.
Anteontem, minha mãe ao telefone:
- Tô sentindo uma coisa ruim meu filho
- uma gastura.
Hoje um carcará do serrado,
Mais estranho, quieto,
Do chão me fitava...

Os seres desceram de suas árvores.
Meu Deus, estarei morto?

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

DIALÉTICA DA FEIÚRA E DA BELEZA INTERIOR

Querer do feio, ferido prévio:
Que só se enamore do semelhante;
Que se distraia;
Que se encha contente, interior...
Dique artificial...

É como pedir voto de pobreza ao mendigo.

Ah se São Francisco viesse hoje!
Quem sabe não devia de vir mulher!?

Ex-capa-atriz-cantora-modêlo-dançarina, conclamaria:
- Ó belos, deitai ao chão a própria beleza!
- Depravai a memória,
mortalidade invisível em vossos corpos!
- Ó feio, sê assim, mudai a história, redimi a todos!
- Para a tua e a glória daqueles:
ajinhos feios há tanto decaídos mesmo em cântico!

Mas como é bela, e boa, e bem sabida,
A danada da santa não veio ou mandou recado.
(Belas são boas em dar bolos!)

Não! Não que seja errado ou inviável
Pedir-se coisas luminosas também ao feio.
Ou mesmo que o feio seja alheio ao sublime.
Creditemos, ora, solenemente a ele,
Olhos profundos e um coração atento.

Mas, admitamos,
Um exigir tamanho, pesaria demais obsceno.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

PASSARINHO

Nessa primavera de aromas
Extraviaram-se os passarinhos.
Tentei encontrá-los com desespero...
Caía a tardezinha...
Onde estavam os passarinhos?
Fico melancólico se não os vejo
E resolvo escrever um versinho.
Ah, se o mundo fosse um passarinho,
Nós que tantas vezes nos perdemos esperando,
Gostaríamos de ignorar suas asas.

domingo, 26 de julho de 2009

A MENINA MORTA (A minha irmã, Fernanda)

Certa vez, minha irmã me falou de Dora, uma criancinha muito bonita que às vezes conversava com ela, lá em casa, e que eu nunca tinha visto. Só para provocá-la, dizia gracejando que ela estava mentindo, ou então que estava ficando louca. Mas veja, finalmente conheci Dora! (Eu já sei quem é Dora, minha irmã) É a menininha morta que visitou meu sonho. Ela é semelhante a uma irmãzinha mais nova, que temos de cuidar. Estende suas mãos pequeninas e diz: Me carregue! E quando carregamos, é ela quem nos sossega, e faz da noite velocíssima, sua esteira de brinquedos. Tem medo de bicho papão e do boi-da-cara-preta; reza o pai nosso e chama por seu anjinho da guarda. Mas acredito ser ela quem nos guarda, da nossa tristeza cotidiana, e nos aperta o coração quando tentamos a conveniência de não amar... As coisas mais singelas... Ela toca xilofone de teclas coloridas, e tira dele sons naturais... Blin Blão, Blin Blin, Blão... Enquanto cantarola outra cantiga qualquer... Também atira brinquedos em mim, e os espalha democraticamente pelo chão, e diz que sou bobo, que não sei brincar. Ela disse que sempre que eu quisesse, me visitaria: às vezes, só em som, outras, em cheiro, outras apenas seria o seu riso de doce partido, com os dentes e cantos da boca melados de chocolate. E me puxaria o cabelo, e me entortaria as pernas de tanto pular.

sábado, 25 de julho de 2009

RECORDAÇÃO INFANTIL (da lagoa antes do aterro)

Na noite dos namoros acometidos de silêncio,
Sons sinestésicos assobiavam
O tempo reminiscente de sedimentos.
Havia diques borbulhantes
De sapos, de vaga-lumes sem luar.
Tudo se comunicando através
De secretos e lamaçentos dialetos.
Na água espumada se faziam seres-d'agua,
Assim como a poesia desfaz a gente em terra.
E os diques borbulhavam,
Pelo respirar descomprometido
Dos chumaços de matos submersos.
Naquela quietude de bichos.

A lagoa não estava sozinha,
E com ela morreria um mundo...
O mundo em que havia lagoas...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A LAGOA ATERRADA

A moça caminhava sobre a lagoa,
A lagoa arquitetada debaixo do aterro.
Com a mão, catou de um graveto
E futucou fundo.
Um menino miúdo veio e falou:
- Ô tia, sai de cima da bóia!!!
Catou uns legumes estragados
E foi-se embora.

Mas pra onde foi a lagoa?

AO FINADO GATO CHAPLIN - Que viveu com Theo

Boa morada é a casa que brinca,
Brincando o divagar da inconsciência.
Gatos tramam batalhas na relva...
Sonhando, eu escolho o arborecer...

Não sei se creio ou se apenas minto
Haver mais esperança aos que ficam.
Convenhamos: fica mais distinto
Desautorizar a desilusão.

Seríamos melhores sem o medo?
Mas não seríamos carne e há vaidade
Réguas, contas, pontas de arremedo.
Somos sempre um pouco de metade.

Brusca trágica de alva ardência,
Encilhadas torrentes nos levam.
Tragédia de não ser bicho é carência,
Estranho livramento o que encobre.

Ninguém viu, ninguém testemunhou nu.
Calor alembrado à dita noite
Em que Chaplin se foi homônimo,
Catar ninho de pardal e catende...

(Próximo ao muro da vizinhança...)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

NASCI PARA ÁGUAS

Padeço de um profundo senso de desregramento das coisas,
daí, inventei desmedidas para tudo...

É que nasci para águas

alimentos de coisas humanas umbigando-se
nas praias me movem; grãos d'areia espraiam afetuosamente

e no ajuntar dos corpos; exaspera a umidade exalada...

Se sou de vento, água é ascendente-natural:
elementos perigosamente combinados em alto mar.

E quando mais, se precipita o temperamento.

Já sereníssimas, águas tornam-se outros... Silenciosa ascensão
em troncos d'árvores fazem podridão germinativa de casca.

Nasci para águas mais que para relvas.

Mesmo quando sólidas de frias e espelho,
sendo constrangimentos ternos em nossa pele.

Águas borbulham e acolhem seres invisíveis.

Não creio haver algo semelhante à alma,
mas se houver, a minha deve sofrer de pingamento.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

BANZO

Entreaberto o invólucro, vago impuro!
Vou-me, carpindo vento e dormindo,
E assim procuro enclaves em meu desterro.

Meus anéis de saudades coligem
Nos flancos de um calvário enternecido,
Já meus olhos afligem meio à conversação.

Ouço um Blues de ser do lado errado.
Em New Orleans também é conveniente
Silenciar no ensejo o pejo obscuro.

Um narcótico desata o peito humano.
E, se por algum defeito ou que me torna,
Deforma a epiderme a fronteira da alma.

Colágenos grassam o corpo já amolecido.
E antes que o rosto se desconheça,
Possa o rôto desafiar a discórdia da criação.

O que nos resta? Rumores e rosas de festa!?
Somos sós e tudo isso para que não caiba
Nas mãos um só tostão de confissão verdadeira.

Aludem a qualquer metafísica ou morte,
Estranhas preces esculpidas na penumbra.
Muitos de nós vergamos ante a felicidade alheia.

Derrogar à sorte é seccionar a veste.
Temamos as vítimas, elas se desconhecem:
Delatam, orgulham-se, depois matam.

Mas arriscando-me entre sândalos e miasmas,
Pouco podia especular sobre a sorte
No que em mim plasma. Rude ambição...

Novíssima capital nacional: crêem-se todos
O outro de dentro. Burocráticas tangentes, nascem
Inaugurando-se no rock de uma poesia estrangeira:

Pra que correr, correr... Ah, mas se todos correm...
E como eu adentrasse, deliberativo e inutilmente
Àquela justa congenitamente orçada,

Mistério de ministérios: estamos dentro!?
Avento em frascos teorias, e os distribuo,
Ditirambo na farmacopéia da noite imensa.

Exus dançam alegremente na recordação infinda,
E cospem os tambores uma fraseologia mansa.
Dengosamente me chega uma felicidade impossível.

É nestas visitações que minto como quem
Tem merecido exibir um raro berloque.
Mas eu fui expurgado e desgasto a coragem.

Chegado o dia, esqueço de tudo e fico terno.
Porque é dor de inverno e já frio de umidades,
Abraço a engrenagem que me aposenta.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

PREPASSO

Antes de nascer meus pais me compraram roupas,
Fizeram pré-natal e avisaram a família.
Escolheram também o médico e a fé,
Escola, profissão e humor!
(Desejaram que eu fosse além de um joelho que ri)

Então nasci.

E logo imaginei que o vento realizava uma volta doce e solitária
Pelo planeta azul, bola de gude azulada no abismo.
Eu gostava de pensar na flor em parapeito de edifício duro
Que um beija-flor veio provar.
E imaginar quem escutava discos engraçados
Esvoaçando pelos ares notas sem preparo à vizinhança.

Foi quando muito cedo
Disseram que nasci para ventos...
Não sei se sou assim porque de tanto ouvir,
Ou se de tanto ouvir os ventos.

Dispensei que, se soubesse as coisas de verdade,
Eu saberia bem menos que sei.
Só então compreendi porque na hora das fotografias,
Parecia sempre o mais entediado.

terça-feira, 7 de julho de 2009

SOLIDÃO INVOLUNTÁRIA

Sinto-me só feito um geômetra
Solicitamente ancorado em riso
Que rindo ao outro um porto-alvo encontra
De acolhimento num vento alísio

Tenho medo de que seja ilusão
A imagem que faço de mim mesmo
Mercadoria ancorada em lastro vão
Assombra-me o desparalelismo

Ofereço um banquete e jantares
Se não vão, culpo a chuva e os ares
Morbidez da gente displicente

Transtorno meu corpo em cata-ventos
E quanto mais frouxo de incrementos
Mais me sou raro, asco, espelho ausente

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O QUE NÃO DARIA

O que eu não daria para ser pequeno como o dia de ontem.
O dia simples e depositado de ontem,
Em que me graciava a solidão das árvores,
E ainda não amava um alguém que não me amava,
À maneira dos que habitam a espera das coisas impossíveis.
(Sejam boas, sejam más)

De repente, todo o meu passado estranhamente tornou-se claro.
As roupas de minha infância engomavam-se ajustadas ao corpo.
Eram também pequeninas e limpas,
E tinham as cores das estampas saltando em nós
Como luzes de palhaços, sorvetes e pára-quedistas,
Dos meus pijamas de algodão daquele tempo...

Ontem nada era confuso
E a lua não possuía mais mistérios que estar atenta
A nos seguir pela extensão da noite absoluta.
Ah, ontem, aquela vontade em ser,
Hoje, o medo de não ser suficiente.

Todos meus problemas - eu quase sabia - eram pequenos
E cabiam perfeitamente nas arestas do dia.
Coisas que eu pude adiar, me adiam agora...
Coisas que eu pude perder, hoje me perdem.
Tempo nosso de cada dia
Como foi incompassivo!

QUEIMAR

Provo-te! O mar é Fogo, não fosse,
De onde regressaria essa violação
Que o fecunda descabido e em prece.
O colho apenas na imaginação...

E este vasto espanto e intimidade
Com que o olho como se a mim mesmo:
Maior que a solidão é a saudade...
Desafiando até a precisão do esmo...

Lânguido, o acometo de sentidos...
Ausentes, descansados, despidos...
Sou um archote chispando em suas vagas...

E os meus nervos ardem docemente...
Há um deus mais medonho e inocente?
Maior que esse mundo... De entregas?

domingo, 5 de julho de 2009

CANÇÃO ESQUECIDA (A Mirella)

I

Tornara-se líquida e já mais definitiva como o mar,
Espelho de sombras e reminiscências ascendia meu corpo,
Urdindo o tecido estranho da renúncia.
Como espelho de sombras e árvores,
Testemunhava o outono e resistia mais simples,
Revestindo os episódios de lisura e nobreza.

Estendo-me ao teu lado feito
Vela imensa de um barco antigo e extinto.
Só eu, e ao teu lado, escuto a tua voz obstinada,
Maviosa e pequeno sopro, e te sigo atento e paciente.
Não sei para onde me levas, ou mesmo se me levas,
Ou se sou eu que te levo...
Apenas vamos...

Ó nervos ternos!
Ó nervos tensos!
Ó nervos dispostos!
Minha poesia, ritmo adverso,
Te aceita no país em que estavas nua,
E as bailarinas de todos os cassinos adormeciam.
Tornara-se humana e exata e participava
De uma ancestralidade que eu reconhecia.
Robustez dos mármores desgastados...
Musgos e liquens, charcos esquecidos...
Alamedas escuras e ressonâncias de mulheres
E homens: enigmas anônimos e concluídos.

Ainda há quem ame os portões enferrujados das casas antigas
E as ramagens e ervas solitárias que vicejam neles.
Ainda há quem ame os passarinhos
Que ciscam nos telhados dos casarios
E suas paredes grossas e esverdeadas.
As lagartixas e os gatos em cima dos muros,
O vendedor de vassouras e as velhinhas
Caminhando lentamente pelas brechas vigorosas do tempo.
Ainda há gente como você, que reverencie a nobreza sólida,
Residente na memória dos seus mortos.
E os recorde com tanta pungência e ternura.

És antiga como a impressão de ter sempre havido
Coisas semelhantes a parques e aquários.
E és também como os peixes e as crianças que viviam neles.
És aquela que se comove com os circos erguidos
De lonas rasgadas em cidadezinhas esquecidas,
E ainda sente piedade pelos bichinhos magros que os acompanha.

II

O dia é frio e chuvoso, mas é primavera,
E eu trago um romantismo simples e abstrato
Que me fala das coisas também de modo simples e abstrato.
Porque já não temo a vida,
E eu, só a sei assim, dentro de um cheiro denso,
Cheiro de terra umedecida,
Assim, através do ritmo dissoluto dos elementos.
Invaginações das ânsias dos séculos...
Sonhos que adentram em sonhos...
Sortilégios futuros e sons sobrenaturais das águas...
Eu, assim como você, carrego essa saudade
De um tempo que não vivi...
Sou só...
Demasiadamente só...

Os homens são todos eles atores deles,
Corrompendo-se no heroísmo dos dias.
A arte é toda ela épica como a vida.
E a morte talvez seja o tempo donde os heróis nascem.

A louca vestiu-se de preto e nos contou a única verdade.
Caminho à sua janela, seu corpo é tão misterioso
Quanto a sombra que o envolve, seus olhos,
Vereda nemorosa dos destinos, de todos os destinos,
Dos seres, e de suas épocas.
O destino é exato como a loucura!
Mas os homens estão mortos,
E eu sou incerto e desabitado.

III

É deste modo que nos entendemos, eu e tu:
Eu, este barco e esta vela a espera de sinais,
E tu, reverência e brandura para meu vôo.
Eu, calmaria póstuma e brevidade,
Tu adormecias em meu sonho e me explicava a saudade.
Eu, timidez exilada e palavra empedernida,
Tu, Eu confesso, e aresta aparada.
Tu, Eu, vontade de que sejas e me inclua,
Onde eu já não seja barco, ou vela, ou pássaro que se movimente,
Mas apenas uma chave para as portas por que passara,
Para as portas ásperas e desesperançadas que me ensinara.

Te sou grato como a terra às chuvas e os amantes às flores.
Te sou grato como as tardes agradecem aos dias,
E as noites às tardes, e ao regressar disperso dos dias.
Te sou grato, devotado e persistente.
Assim como o viver é rumor e certeza
E o morrer, a visitação profunda da renúncia.

Um dia, teu avô tão amado irá regressar,
Vindo de alguma zona anônima e silenciosa.
Um dia, quando nem eu, nem tu estivermos mais aqui,
E não restar senão sombras e frêmitos de nossas existências,
Ele regressará, leve e misterioso como a bruma,
E amará uma netinha, menina dançarina,
Meiga e emotiva, e de sorriso fértil.

Um dia, quem sabe, quando estivermos distantes,
Alguém irá encontrar entre o pó e a palidez dos anos
Uma caixinha esquecida num porão,
Guardando algum poema que te fiz.
Então, eu e tu ganharemos a beleza silenciosa das eras.

sábado, 4 de julho de 2009

CORPO

Descer até corpo, menos disperso,
Até sentir um cheiro de vento e água,
E uma serenidade de percorrimento, sincera e suficiente.
Dispor-se a terra e assoalhar os territórios menores,
Afeito mesmo a temores e relicários.

Percorrer os vincos da brevidade
E morrer a última morte.
Morrer definitivamente
Onde não haja trégua ou cansaço,
E tudo se deposite sem urgências.

Ser como os animais, mas não ser eles.
Esse mistério do inumano no humano
Que combús séculos de filosofia.
Foram homenzinhos de corpos frágeis e estômago fraco
Os que nos legaram a fragilidade da carne.
Assim rezavam eles: ó Pai, somos temerosos da vida quando nasce,
Temerosos da vida quando se apodrece. Perdoai-nos!

Um dia, uma presença sonora
Irá sussurrar mansamente nas orelhas encolhidas,
Ordenando a todos que retornem às cavernas e montanhas.
Riscarão novamente as paredes de flor e carvão,
Tocando tambores alados de pele e madeira,
E se comunicarão imitando a linguagem livre dos pássaros.

Mas haverá tal território?

DESCRIÇÃO ZOMBETEIRA (Diálogos com Fernando Rodrigues, Gregory Bateson e o "Doido" da festa do Dois de Julho)

“Se você emprega DDT para matar INSETOS”
Tente um pouco de GENTE.

Para alguns-de-nós o corpo se quebra
Quando esbarra na toxicologia da honra.
E para alguns-de-nós,
Entrar nesse teatro de feras
Assemelha-se a contrair uma dívida...
Sinto informar, para todo o sempre...

Haverá também outro alguns-de-nós
Aguardando a submissão progressivamente dócil
Dos corpos selvagens de uns alguns-de-nós
(Uns e outros alguns-de-nós esfregam-se ocasionalmente!)

No que se acusam os olhos caídos até cujos de pedras,
Vive-se num tempo em que é muito perigoso a feiúra.
Isso, claro, para alguns-de-nós...
(Mais perigoso que a lepra ou a sífilis d’outrora)
Para feiúra ainda não se inventou
Expressão politicamente correta.
E por que se inventaria?
Alguns-de-nós acreditam que ela tem cura!

Mas às vezes se quer um descanso da própria dignidade.
Descanso da morbidez incurável
Inscrita num corpo alquebrado pelo esforço de ser.
(Tudo isso, claro, sempre para alguns-de-nós)

Alguns-e-outros-de-nós, acólitas apoteóticos
Nesse palco de plumas e nebulosas.
E outros-de-nós apenas vergados.
Por entre o raro e o escárnio
Existe uma ponte de vigas espúrias.
E no ato ou efeito de transpor,
Já não se sabe quantas vezes
A face foi duplamente dada e corrompida.

(Alguns-de-nós perderam definitivamente a face)

Muitos-de-nós berravam-se enquanto outros-de-nós cochichavam
(Só por um pouco de atenção)
Absurdo vaivém, e ainda gritar contra o ranger renitente
Das engrenagens que esfolam.
Absurdo viver, para alguns-de-nós
E ainda ser mais esfolado porque se grita.

Qual ópio nesses casos pareceria apropriado!?
“A embriaguez, o patriotismo, o senso de artista, o cortejo...”
Tudo, tudo junto... Tudo isso diz alguma coisa...
Licenciosidades cívicas da nudez grotesca...
Seriam aporias dum protesto?
Modalidades subreptícias de resistências?

Alguns-e-outros dentre alguns-de-nós
Ainda pensam que nossa rua continua aprumada,
Mesmo que uma estranha emoção desminta.


OBS: (O vídeo que contribuiu para a feitura desse poema encontra-se no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=6GjQYy1qc7k e é de autoria de Fernando Rodrigues, o cara que teve a sensibilidade de ver o que ali mais se ocultava)

SOBRE O APARECER-SE (... e a poesia de bicho grilo de Mário Quintana)

O aparente não era o chão...
Uma legião de pássaros assobiou em mim.
O aparente não eram os sons...
E tua voz imensa reverberou em corpo.
Tudo estava quieto, menos eu.
E eu também não me graciava com nada.
Tinha apraiado nos sons de friagens,
Quando os rios já corriam em linguagem de corpo.
Apeei na grama feito grilo, quietinho, quietinho...
Até ficar muito-feito-grama.
Veio outro grilo e apeou em mim.
E vi que debaixo da gente a grama criava pernas...

TARDE MONÓTONA

Ah, tarde monótona...
Desfio o cordão do tempo,
Depois o atiro, miolo de pão na lagoa
Até fazer estripulia sem razão com palavra.

Amores e consangüíneos conseqüentes,
Encrispam o vento em frações de tempo inútil.
Daí nasce uma literatura...

Vejamos onde começa a estranheza de um poeta:
Ele gosta de poder contar uma loucura que não é sua.
E amar muito e dedicadamente
As coisas que ele não é.
Crueza em olhar atentamente as coisas,
Só pelo prazer divinatório de dizê-las como não são.
O poeta é mesmo um mentiroso que escreve.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

PERDER-ME EM CARNE DE FLORES

Gosto deste gosto de ócio e de cio.
Verto as seivas brutas e capitosas.
Os frutos sumarentos e o arrepio.
Lascívia em teu corpo quando gozas.

Das flores decerto amarei a rosa,
Me cansam as flores brancas e azuis.
São de uma castidade indecorosa.
Prefiro nossos corpos se estamos nus.

No entardecer a tua carne é fremente.
Beijo o teu lábio-fogo: De repente
Gostaria que fosses azul ou branca.

Gostaria que os anjos sejam sensuais,
Se quando te amo ouço hinos divinais:
Ah, mas que encanto de céu em tua anca...

DIÁFANO

Despi minha música interior de sua forma mais proposital,
E esvaziei minha ânfora de convicções e suspeitas
Sobre um chão hostil e desesperançado.
A ideia mais clara a que chego de mim mesmo,
É de um alguém que durante a vida economizou sorrisos,
Celebrou os anos e chorou definitivamente.
Mas que hora fugaz é nossa hora!
Já quase pesada de infinitas ausências
Acatou a ordem humana de perecer

BALÉ DOS NOCTÍVAGOS

I
Ofereço-me neste à diante,
Nesta senda nova e inequívoca,
Como fosse uma mãe, um astro que paira,
Ou uma flor em beira de estrada.
Na trama distorcida dos meus olhos
Persistia ainda um requinte de miragens.
E era preciso coragem para estar comigo
E não sentir culpa pela danação que abrigava.

Se me perguntassem o que faço,
Responderia: Apenas danço!
Se me dissessem que há uma fórmula da felicidade,
Ou que uma revolução começou,
Ou mesmo que se resolveria a fome do planeta,
Que importaria agora?
Agora que entrei em todas essas coisas,
Que tive carros, fiz guerras e amores.
Agora que sei dançar!

II
O hálito matutino me invade,
E era uma flor estranha aquele vento.
Estava no mesmo lugar em que as coisas morrem.
Mas eu era a vida
Cheia de coisas tingidas e sensuais,
E palavras persistindo-se à exaustão de tudo.

Bordéis e bêbados, em ressaca,
E o silêncio trazido numa nuvem fria
Ocultava a derradeira estrela, lá no firmamento.
Vi putas e meliantes a andarem juntos
Devorando-se e a nós, que no lirismo do descabido
Convínhamos apenas

E após rasparem da noite sua última gota de violação e risco
Fecharam seus corpos numa armadura de silêncio

III
Olho o horizonte enevoado,
E amo mulheres que se abandonam a mim
Mas em vão vigio meus olhos inquietos
Para cobiçarem apenas o que já é meu, e que descansem:
No enquanto, meu ser transgride a si mesmo

Trago comigo um desejo de cais, de gares,
Uma condição de estrangeiro aporta em meu corpo.
Pudesse eu tornar-me livre e ser outro que não o eu de agora,
Pudesse ser mais forte, terno e distante do que me é mesquinho.
Mas seria apenas outro,
Também desejoso de ser livre,
Também em busca de felicidade, reconhecimentos e realizações.
(Libertar-me é não mais querer essa liberdade)

IV
Na escalada do tempo todos estavam descalços.
Na festa fantástica das horas
O vento foi mais pavoroso
Para quem não coube nos nervos da incerteza.
Conto essas coisas como se as soubesse bem,
Mas bem, apenas me sei erguido:
Semelhante a um velho, maravilhado diante das coisas vistas,
Feito criança, sereno diante das que não vi,
Feito homem, limpo por não ter lavado as mãos,
Feito um louco, sóbrio por ter tomado a dose precisa.

Ah, vida, és o jogo do acaso e do destino...
Não mais nem menos que a vida vivida,
Não mais nem menos é qualquer vago e misterioso fato,
Sem ato ou efeito de transpor.
Lembranças de estradas e limosidades...
De canções ao vento e jogos de gude...
E o lume de búzio sob o mar irisado...
Tudo prontidão de ciranda e silêncio.

V
A manhã cintilante e enevoaçada
Tem cheiro de mar...
Manhã achegada de calma lentamente,
Que colhe demanda e embrutece:
Revés dos revezes d’outrora.
(Medito-me no que aporto)

Afora, sou atávico como todos,
Desejando minha cama, feito um bicho...
Amando meu corpo desgastado pela noite,
E minha mortalidade mais que a tudo...
Assim como todas as noites passadas e futuras,
E todos os dias, até os mais infelizes.

(Ainda me recordo e estou vivo: desejoso de vida como quem amarelece)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

PERFIL

O barco descia uma correria só
Crivada de caudas frágeis
Pelo céu, se via a mesma água que um rio...
Manchas macilentas, o destino do barco era a travessia
O destino do homem, era o barco
Quem pensaria no que se dava, acaso os visse,
Barco e homem, adjuntos num instante!?
Quem pensaria em perguntá-los: "Acaso vão, senhores?"
Acaso querem ajuda?
E nas águas, o afluxo da inconstância se repartia,
Para que logo à diante se revestisse texturizante
A indolência prática das corredeiras
Entre cores, crivos e margens
Que como eras, refirmavam, lado a lado
A hora equidistante da noite

A NAVE DAS HORAS

Meu coração se cai vicinal e cheio,
Feito uma nau vinda das índias,
Com seus tapetes perfumes e coisas exuberantes
Atiçando a imaginação dos homens gânglios e ciosos.
Minhas mãos trago-as suaves,
Para que possam dar carinho a toda gente só como eu.
Minha vaidade, deitei ao chão no dia em que estive comigo,
E decidi guardar segredo sobre todas as coisas que sei,
E só falar sobre as que não sei.

Ó paixões a luar-vasta, florestas de multidões...
Ó intimidade das coisas distantes
Que observo e dou nome como a uma estrela...
Quantos dias ainda viverei entre os seres!?
Quantos heróis inda terei!?
Talvez de nada valeria saber...
Sofreria!
Mas já sofro sem o saber.

Quem sabe, eu mesmo não me tenho definido e comportado
Tão corriqueiro, trivial e adoecido?!
Quem sabe quantas vezes
Não fiz da infelicidade um motivo para viver,
Receber afetos e fazer poesias?!

Tantas urgências nos perseguem...
Tantos Eu Tenho que ser e fazer.
Tantos Ah, se eu soubesse...
E pequenas discórdias, invejas e explicações.

Mas eu também tive um amor
E gostaria talvez de estar com ele agora.
E escrever o amor e a doçura,
Ao invés das guerras e convulsões do meu tempo.
Mas há séculos os homens têm queixado-se tanto pelo que não são:
E quanto a mim, detrator do meu mal,
Sou por isso melhor ou pior aos olhos de todos!?
Sou merecedor de mais ou menos favores dalgum júri!?
Basta-me que denominamos injustos
Os que disseram Sim
Pelo terem o que mereciam,
E justos os que disseram Não
Pelo não terem o que mereciam.

Estranha irmandade e malícia que nutro por todos...
Ó ternas sinfonias de gentes,
Que passam em mim feito frases amorosas...
Que recordo e confesso...
Esse mundo, um infinito de infinitos...
Um mover-se eternamente...

DESCRIÇÃO ALONGADA SOBRE A CASA ONDE MORO

Moro numa casa decorada de apenas no por fora,
E visito-me no quarto mais escuro.
Estou cego! Estou cego!
Faço recordâncias em profundezas de brejos.
Areal se derretendo, pêndulo em sol,
Navio negreiro berlindo de bem longe... Longe... Longe...
E após escutar Manoel de Barros
Já criei até metas-físicas: como a de atravessar um rio,
Pisar em terra descalço, assobiar pássaros,
E aguardar o regressar manso dos peixes.
Tudo desetiquetas e singelesas miúdas em cordõezinhos para pulseiras.

Não sei se correspondo nada,
Assemelho-me a um parque
Com mármores gastos nas escadas e assentos.
Não carreguei o pendão de nenhuma vitória ou derrota alheia.
Nem sei se sou adequado ou bem vindo
A esteira de brinquedos do vizinho...

O TEMPO É DURO E SECO

O tempo é duro e seco
Como o rosto de uma mulher que não amamos.
Ela nos acorda e fita de brinquedo,
E faz chantagens de amor...

Ela é bela, mas não se consuma,
O tempo é duro e entreaberto.
(E o que seria dela se a amássemos?)
Foi exilada de nossas lembranças,
Para que lembrássemos de coisas que não são ela.
(Vejam! Até parece que a amamos)

O tempo é semelhante ao vento que alisa a encosta dura.
Mas era a encosta, esse seu espelho.
Há visgos e ferrugens em tudo.
E quanto às discórdias,
Parecia que ninguém estava certo.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

PRONTIDÃO DE TERNURA E ACASALAMENTO PARA COM AS COISAS:

É preciso que falemos de palmeiras ao sol,
De barcos e acontecimentos.
É preciso que falemos o nosso amor
E para ele tragamos as palmeiras, o sol, os barcos e os acontecimentos.
É preciso até que façamos promessa em casca de árvore.
Mas não como paisagem inerte, ambientante e operária.
Não como pedaço de coisa sem vida,
Mas coisa singular, coisa amada.
Não coisa que faz pensar,
Mas coisa que faz pensar em nada.
E amá-la pelo poder de vazio e arrebatamento que instaura.

No amor se está feito ser indefenso.
Até quando instalados na vontade cansativa de desgastá-lo, amor...

ÓPIO E REFLUXO

Estar delegado ao asno
Feito feno que se ilude
Corrompido pela boca magnânima do cuspe

Nos despedimos, e a despedida não concede a trégua
As folhas caem, e nossa facticidade convicta atravessa o crespo
De solução em solução
Onda... Recomeçamos
Com uma fé prosaica no recomeçar
Mas cientes da insensatez que preside tudo.

Fizemos trocas insubstanciais em pequenos frascos
(A filigrama nos concede)
Há tempo,
Mas o tempo é um córrego convicto em seu propósito...
Nós... Temos em muita vez medo dos propósitos

O engajamento válido,
É também um realismo morto...
Somos sóbrios
E a sobriedade é o estar atento à invenção

Tomamos ópio
Talvez haja nele um algo que nos vitalize
Pensemos assim:
Ainda que haja asco, rebusquemos o episódio da insensatez