quarta-feira, 29 de julho de 2009

PASSARINHO

Nessa primavera de aromas
Extraviaram-se os passarinhos.
Tentei encontrá-los com desespero...
Caía a tardezinha...
Onde estavam os passarinhos?
Fico melancólico se não os vejo
E resolvo escrever um versinho.
Ah, se o mundo fosse um passarinho,
Nós que tantas vezes nos perdemos esperando,
Gostaríamos de ignorar suas asas.

domingo, 26 de julho de 2009

A MENINA MORTA (A minha irmã, Fernanda)

Certa vez, minha irmã me falou de Dora, uma criancinha muito bonita que às vezes conversava com ela, lá em casa, e que eu nunca tinha visto. Só para provocá-la, dizia gracejando que ela estava mentindo, ou então que estava ficando louca. Mas veja, finalmente conheci Dora! (Eu já sei quem é Dora, minha irmã) É a menininha morta que visitou meu sonho. Ela é semelhante a uma irmãzinha mais nova, que temos de cuidar. Estende suas mãos pequeninas e diz: Me carregue! E quando carregamos, é ela quem nos sossega, e faz da noite velocíssima, sua esteira de brinquedos. Tem medo de bicho papão e do boi-da-cara-preta; reza o pai nosso e chama por seu anjinho da guarda. Mas acredito ser ela quem nos guarda, da nossa tristeza cotidiana, e nos aperta o coração quando tentamos a conveniência de não amar... As coisas mais singelas... Ela toca xilofone de teclas coloridas, e tira dele sons naturais... Blin Blão, Blin Blin, Blão... Enquanto cantarola outra cantiga qualquer... Também atira brinquedos em mim, e os espalha democraticamente pelo chão, e diz que sou bobo, que não sei brincar. Ela disse que sempre que eu quisesse, me visitaria: às vezes, só em som, outras, em cheiro, outras apenas seria o seu riso de doce partido, com os dentes e cantos da boca melados de chocolate. E me puxaria o cabelo, e me entortaria as pernas de tanto pular.

sábado, 25 de julho de 2009

RECORDAÇÃO INFANTIL (da lagoa antes do aterro)

Na noite dos namoros acometidos de silêncio,
Sons sinestésicos assobiavam
O tempo reminiscente de sedimentos.
Havia diques borbulhantes
De sapos, de vaga-lumes sem luar.
Tudo se comunicando através
De secretos e lamaçentos dialetos.
Na água espumada se faziam seres-d'agua,
Assim como a poesia desfaz a gente em terra.
E os diques borbulhavam,
Pelo respirar descomprometido
Dos chumaços de matos submersos.
Naquela quietude de bichos.

A lagoa não estava sozinha,
E com ela morreria um mundo...
O mundo em que havia lagoas...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A LAGOA ATERRADA

A moça caminhava sobre a lagoa,
A lagoa arquitetada debaixo do aterro.
Com a mão, catou de um graveto
E futucou fundo.
Um menino miúdo veio e falou:
- Ô tia, sai de cima da bóia!!!
Catou uns legumes estragados
E foi-se embora.

Mas pra onde foi a lagoa?

AO FINADO GATO CHAPLIN - Que viveu com Theo

Boa morada é a casa que brinca,
Brincando o divagar da inconsciência.
Gatos tramam batalhas na relva...
Sonhando, eu escolho o arborecer...

Não sei se creio ou se apenas minto
Haver mais esperança aos que ficam.
Convenhamos: fica mais distinto
Desautorizar a desilusão.

Seríamos melhores sem o medo?
Mas não seríamos carne e há vaidade
Réguas, contas, pontas de arremedo.
Somos sempre um pouco de metade.

Brusca trágica de alva ardência,
Encilhadas torrentes nos levam.
Tragédia de não ser bicho é carência,
Estranho livramento o que encobre.

Ninguém viu, ninguém testemunhou nu.
Calor alembrado à dita noite
Em que Chaplin se foi homônimo,
Catar ninho de pardal e catende...

(Próximo ao muro da vizinhança...)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

NASCI PARA ÁGUAS

Padeço de um profundo senso de desregramento das coisas,
daí, inventei desmedidas para tudo...

É que nasci para águas

alimentos de coisas humanas umbigando-se
nas praias me movem; grãos d'areia espraiam afetuosamente

e no ajuntar dos corpos; exaspera a umidade exalada...

Se sou de vento, água é ascendente-natural:
elementos perigosamente combinados em alto mar.

E quando mais, se precipita o temperamento.

Já sereníssimas, águas tornam-se outros... Silenciosa ascensão
em troncos d'árvores fazem podridão germinativa de casca.

Nasci para águas mais que para relvas.

Mesmo quando sólidas de frias e espelho,
sendo constrangimentos ternos em nossa pele.

Águas borbulham e acolhem seres invisíveis.

Não creio haver algo semelhante à alma,
mas se houver, a minha deve sofrer de pingamento.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

BANZO

Entreaberto o invólucro, vago impuro!
Vou-me, carpindo vento e dormindo,
E assim procuro enclaves em meu desterro.

Meus anéis de saudades coligem
Nos flancos de um calvário enternecido,
Já meus olhos afligem meio à conversação.

Ouço um Blues de ser do lado errado.
Em New Orleans também é conveniente
Silenciar no ensejo o pejo obscuro.

Um narcótico desata o peito humano.
E, se por algum defeito ou que me torna,
Deforma a epiderme a fronteira da alma.

Colágenos grassam o corpo já amolecido.
E antes que o rosto se desconheça,
Possa o rôto desafiar a discórdia da criação.

O que nos resta? Rumores e rosas de festa!?
Somos sós e tudo isso para que não caiba
Nas mãos um só tostão de confissão verdadeira.

Aludem a qualquer metafísica ou morte,
Estranhas preces esculpidas na penumbra.
Muitos de nós vergamos ante a felicidade alheia.

Derrogar à sorte é seccionar a veste.
Temamos as vítimas, elas se desconhecem:
Delatam, orgulham-se, depois matam.

Mas arriscando-me entre sândalos e miasmas,
Pouco podia especular sobre a sorte
No que em mim plasma. Rude ambição...

Novíssima capital nacional: crêem-se todos
O outro de dentro. Burocráticas tangentes, nascem
Inaugurando-se no rock de uma poesia estrangeira:

Pra que correr, correr... Ah, mas se todos correm...
E como eu adentrasse, deliberativo e inutilmente
Àquela justa congenitamente orçada,

Mistério de ministérios: estamos dentro!?
Avento em frascos teorias, e os distribuo,
Ditirambo na farmacopéia da noite imensa.

Exus dançam alegremente na recordação infinda,
E cospem os tambores uma fraseologia mansa.
Dengosamente me chega uma felicidade impossível.

É nestas visitações que minto como quem
Tem merecido exibir um raro berloque.
Mas eu fui expurgado e desgasto a coragem.

Chegado o dia, esqueço de tudo e fico terno.
Porque é dor de inverno e já frio de umidades,
Abraço a engrenagem que me aposenta.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

PREPASSO

Antes de nascer meus pais me compraram roupas,
Fizeram pré-natal e avisaram a família.
Escolheram também o médico e a fé,
Escola, profissão e humor!
(Desejaram que eu fosse além de um joelho que ri)

Então nasci.

E logo imaginei que o vento realizava uma volta doce e solitária
Pelo planeta azul, bola de gude azulada no abismo.
Eu gostava de pensar na flor em parapeito de edifício duro
Que um beija-flor veio provar.
E imaginar quem escutava discos engraçados
Esvoaçando pelos ares notas sem preparo à vizinhança.

Foi quando muito cedo
Disseram que nasci para ventos...
Não sei se sou assim porque de tanto ouvir,
Ou se de tanto ouvir os ventos.

Dispensei que, se soubesse as coisas de verdade,
Eu saberia bem menos que sei.
Só então compreendi porque na hora das fotografias,
Parecia sempre o mais entediado.

terça-feira, 7 de julho de 2009

SOLIDÃO INVOLUNTÁRIA

Sinto-me só feito um geômetra
Solicitamente ancorado em riso
Que rindo ao outro um porto-alvo encontra
De acolhimento num vento alísio

Tenho medo de que seja ilusão
A imagem que faço de mim mesmo
Mercadoria ancorada em lastro vão
Assombra-me o desparalelismo

Ofereço um banquete e jantares
Se não vão, culpo a chuva e os ares
Morbidez da gente displicente

Transtorno meu corpo em cata-ventos
E quanto mais frouxo de incrementos
Mais me sou raro, asco, espelho ausente

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O QUE NÃO DARIA

O que eu não daria para ser pequeno como o dia de ontem.
O dia simples e depositado de ontem,
Em que me graciava a solidão das árvores,
E ainda não amava um alguém que não me amava,
À maneira dos que habitam a espera das coisas impossíveis.
(Sejam boas, sejam más)

De repente, todo o meu passado estranhamente tornou-se claro.
As roupas de minha infância engomavam-se ajustadas ao corpo.
Eram também pequeninas e limpas,
E tinham as cores das estampas saltando em nós
Como luzes de palhaços, sorvetes e pára-quedistas,
Dos meus pijamas de algodão daquele tempo...

Ontem nada era confuso
E a lua não possuía mais mistérios que estar atenta
A nos seguir pela extensão da noite absoluta.
Ah, ontem, aquela vontade em ser,
Hoje, o medo de não ser suficiente.

Todos meus problemas - eu quase sabia - eram pequenos
E cabiam perfeitamente nas arestas do dia.
Coisas que eu pude adiar, me adiam agora...
Coisas que eu pude perder, hoje me perdem.
Tempo nosso de cada dia
Como foi incompassivo!

QUEIMAR

Provo-te! O mar é Fogo, não fosse,
De onde regressaria essa violação
Que o fecunda descabido e em prece.
O colho apenas na imaginação...

E este vasto espanto e intimidade
Com que o olho como se a mim mesmo:
Maior que a solidão é a saudade...
Desafiando até a precisão do esmo...

Lânguido, o acometo de sentidos...
Ausentes, descansados, despidos...
Sou um archote chispando em suas vagas...

E os meus nervos ardem docemente...
Há um deus mais medonho e inocente?
Maior que esse mundo... De entregas?

domingo, 5 de julho de 2009

CANÇÃO ESQUECIDA (A Mirella)

I

Tornara-se líquida e já mais definitiva como o mar,
Espelho de sombras e reminiscências ascendia meu corpo,
Urdindo o tecido estranho da renúncia.
Como espelho de sombras e árvores,
Testemunhava o outono e resistia mais simples,
Revestindo os episódios de lisura e nobreza.

Estendo-me ao teu lado feito
Vela imensa de um barco antigo e extinto.
Só eu, e ao teu lado, escuto a tua voz obstinada,
Maviosa e pequeno sopro, e te sigo atento e paciente.
Não sei para onde me levas, ou mesmo se me levas,
Ou se sou eu que te levo...
Apenas vamos...

Ó nervos ternos!
Ó nervos tensos!
Ó nervos dispostos!
Minha poesia, ritmo adverso,
Te aceita no país em que estavas nua,
E as bailarinas de todos os cassinos adormeciam.
Tornara-se humana e exata e participava
De uma ancestralidade que eu reconhecia.
Robustez dos mármores desgastados...
Musgos e liquens, charcos esquecidos...
Alamedas escuras e ressonâncias de mulheres
E homens: enigmas anônimos e concluídos.

Ainda há quem ame os portões enferrujados das casas antigas
E as ramagens e ervas solitárias que vicejam neles.
Ainda há quem ame os passarinhos
Que ciscam nos telhados dos casarios
E suas paredes grossas e esverdeadas.
As lagartixas e os gatos em cima dos muros,
O vendedor de vassouras e as velhinhas
Caminhando lentamente pelas brechas vigorosas do tempo.
Ainda há gente como você, que reverencie a nobreza sólida,
Residente na memória dos seus mortos.
E os recorde com tanta pungência e ternura.

És antiga como a impressão de ter sempre havido
Coisas semelhantes a parques e aquários.
E és também como os peixes e as crianças que viviam neles.
És aquela que se comove com os circos erguidos
De lonas rasgadas em cidadezinhas esquecidas,
E ainda sente piedade pelos bichinhos magros que os acompanha.

II

O dia é frio e chuvoso, mas é primavera,
E eu trago um romantismo simples e abstrato
Que me fala das coisas também de modo simples e abstrato.
Porque já não temo a vida,
E eu, só a sei assim, dentro de um cheiro denso,
Cheiro de terra umedecida,
Assim, através do ritmo dissoluto dos elementos.
Invaginações das ânsias dos séculos...
Sonhos que adentram em sonhos...
Sortilégios futuros e sons sobrenaturais das águas...
Eu, assim como você, carrego essa saudade
De um tempo que não vivi...
Sou só...
Demasiadamente só...

Os homens são todos eles atores deles,
Corrompendo-se no heroísmo dos dias.
A arte é toda ela épica como a vida.
E a morte talvez seja o tempo donde os heróis nascem.

A louca vestiu-se de preto e nos contou a única verdade.
Caminho à sua janela, seu corpo é tão misterioso
Quanto a sombra que o envolve, seus olhos,
Vereda nemorosa dos destinos, de todos os destinos,
Dos seres, e de suas épocas.
O destino é exato como a loucura!
Mas os homens estão mortos,
E eu sou incerto e desabitado.

III

É deste modo que nos entendemos, eu e tu:
Eu, este barco e esta vela a espera de sinais,
E tu, reverência e brandura para meu vôo.
Eu, calmaria póstuma e brevidade,
Tu adormecias em meu sonho e me explicava a saudade.
Eu, timidez exilada e palavra empedernida,
Tu, Eu confesso, e aresta aparada.
Tu, Eu, vontade de que sejas e me inclua,
Onde eu já não seja barco, ou vela, ou pássaro que se movimente,
Mas apenas uma chave para as portas por que passara,
Para as portas ásperas e desesperançadas que me ensinara.

Te sou grato como a terra às chuvas e os amantes às flores.
Te sou grato como as tardes agradecem aos dias,
E as noites às tardes, e ao regressar disperso dos dias.
Te sou grato, devotado e persistente.
Assim como o viver é rumor e certeza
E o morrer, a visitação profunda da renúncia.

Um dia, teu avô tão amado irá regressar,
Vindo de alguma zona anônima e silenciosa.
Um dia, quando nem eu, nem tu estivermos mais aqui,
E não restar senão sombras e frêmitos de nossas existências,
Ele regressará, leve e misterioso como a bruma,
E amará uma netinha, menina dançarina,
Meiga e emotiva, e de sorriso fértil.

Um dia, quem sabe, quando estivermos distantes,
Alguém irá encontrar entre o pó e a palidez dos anos
Uma caixinha esquecida num porão,
Guardando algum poema que te fiz.
Então, eu e tu ganharemos a beleza silenciosa das eras.

sábado, 4 de julho de 2009

CORPO

Descer até corpo, menos disperso,
Até sentir um cheiro de vento e água,
E uma serenidade de percorrimento, sincera e suficiente.
Dispor-se a terra e assoalhar os territórios menores,
Afeito mesmo a temores e relicários.

Percorrer os vincos da brevidade
E morrer a última morte.
Morrer definitivamente
Onde não haja trégua ou cansaço,
E tudo se deposite sem urgências.

Ser como os animais, mas não ser eles.
Esse mistério do inumano no humano
Que combús séculos de filosofia.
Foram homenzinhos de corpos frágeis e estômago fraco
Os que nos legaram a fragilidade da carne.
Assim rezavam eles: ó Pai, somos temerosos da vida quando nasce,
Temerosos da vida quando se apodrece. Perdoai-nos!

Um dia, uma presença sonora
Irá sussurrar mansamente nas orelhas encolhidas,
Ordenando a todos que retornem às cavernas e montanhas.
Riscarão novamente as paredes de flor e carvão,
Tocando tambores alados de pele e madeira,
E se comunicarão imitando a linguagem livre dos pássaros.

Mas haverá tal território?

DESCRIÇÃO ZOMBETEIRA (Diálogos com Fernando Rodrigues, Gregory Bateson e o "Doido" da festa do Dois de Julho)

“Se você emprega DDT para matar INSETOS”
Tente um pouco de GENTE.

Para alguns-de-nós o corpo se quebra
Quando esbarra na toxicologia da honra.
E para alguns-de-nós,
Entrar nesse teatro de feras
Assemelha-se a contrair uma dívida...
Sinto informar, para todo o sempre...

Haverá também outro alguns-de-nós
Aguardando a submissão progressivamente dócil
Dos corpos selvagens de uns alguns-de-nós
(Uns e outros alguns-de-nós esfregam-se ocasionalmente!)

No que se acusam os olhos caídos até cujos de pedras,
Vive-se num tempo em que é muito perigoso a feiúra.
Isso, claro, para alguns-de-nós...
(Mais perigoso que a lepra ou a sífilis d’outrora)
Para feiúra ainda não se inventou
Expressão politicamente correta.
E por que se inventaria?
Alguns-de-nós acreditam que ela tem cura!

Mas às vezes se quer um descanso da própria dignidade.
Descanso da morbidez incurável
Inscrita num corpo alquebrado pelo esforço de ser.
(Tudo isso, claro, sempre para alguns-de-nós)

Alguns-e-outros-de-nós, acólitas apoteóticos
Nesse palco de plumas e nebulosas.
E outros-de-nós apenas vergados.
Por entre o raro e o escárnio
Existe uma ponte de vigas espúrias.
E no ato ou efeito de transpor,
Já não se sabe quantas vezes
A face foi duplamente dada e corrompida.

(Alguns-de-nós perderam definitivamente a face)

Muitos-de-nós berravam-se enquanto outros-de-nós cochichavam
(Só por um pouco de atenção)
Absurdo vaivém, e ainda gritar contra o ranger renitente
Das engrenagens que esfolam.
Absurdo viver, para alguns-de-nós
E ainda ser mais esfolado porque se grita.

Qual ópio nesses casos pareceria apropriado!?
“A embriaguez, o patriotismo, o senso de artista, o cortejo...”
Tudo, tudo junto... Tudo isso diz alguma coisa...
Licenciosidades cívicas da nudez grotesca...
Seriam aporias dum protesto?
Modalidades subreptícias de resistências?

Alguns-e-outros dentre alguns-de-nós
Ainda pensam que nossa rua continua aprumada,
Mesmo que uma estranha emoção desminta.


OBS: (O vídeo que contribuiu para a feitura desse poema encontra-se no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=6GjQYy1qc7k e é de autoria de Fernando Rodrigues, o cara que teve a sensibilidade de ver o que ali mais se ocultava)

SOBRE O APARECER-SE (... e a poesia de bicho grilo de Mário Quintana)

O aparente não era o chão...
Uma legião de pássaros assobiou em mim.
O aparente não eram os sons...
E tua voz imensa reverberou em corpo.
Tudo estava quieto, menos eu.
E eu também não me graciava com nada.
Tinha apraiado nos sons de friagens,
Quando os rios já corriam em linguagem de corpo.
Apeei na grama feito grilo, quietinho, quietinho...
Até ficar muito-feito-grama.
Veio outro grilo e apeou em mim.
E vi que debaixo da gente a grama criava pernas...

TARDE MONÓTONA

Ah, tarde monótona...
Desfio o cordão do tempo,
Depois o atiro, miolo de pão na lagoa
Até fazer estripulia sem razão com palavra.

Amores e consangüíneos conseqüentes,
Encrispam o vento em frações de tempo inútil.
Daí nasce uma literatura...

Vejamos onde começa a estranheza de um poeta:
Ele gosta de poder contar uma loucura que não é sua.
E amar muito e dedicadamente
As coisas que ele não é.
Crueza em olhar atentamente as coisas,
Só pelo prazer divinatório de dizê-las como não são.
O poeta é mesmo um mentiroso que escreve.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

PERDER-ME EM CARNE DE FLORES

Gosto deste gosto de ócio e de cio.
Verto as seivas brutas e capitosas.
Os frutos sumarentos e o arrepio.
Lascívia em teu corpo quando gozas.

Das flores decerto amarei a rosa,
Me cansam as flores brancas e azuis.
São de uma castidade indecorosa.
Prefiro nossos corpos se estamos nus.

No entardecer a tua carne é fremente.
Beijo o teu lábio-fogo: De repente
Gostaria que fosses azul ou branca.

Gostaria que os anjos sejam sensuais,
Se quando te amo ouço hinos divinais:
Ah, mas que encanto de céu em tua anca...

DIÁFANO

Despi minha música interior de sua forma mais proposital,
E esvaziei minha ânfora de convicções e suspeitas
Sobre um chão hostil e desesperançado.
A ideia mais clara a que chego de mim mesmo,
É de um alguém que durante a vida economizou sorrisos,
Celebrou os anos e chorou definitivamente.
Mas que hora fugaz é nossa hora!
Já quase pesada de infinitas ausências
Acatou a ordem humana de perecer

BALÉ DOS NOCTÍVAGOS

I
Ofereço-me neste à diante,
Nesta senda nova e inequívoca,
Como fosse uma mãe, um astro que paira,
Ou uma flor em beira de estrada.
Na trama distorcida dos meus olhos
Persistia ainda um requinte de miragens.
E era preciso coragem para estar comigo
E não sentir culpa pela danação que abrigava.

Se me perguntassem o que faço,
Responderia: Apenas danço!
Se me dissessem que há uma fórmula da felicidade,
Ou que uma revolução começou,
Ou mesmo que se resolveria a fome do planeta,
Que importaria agora?
Agora que entrei em todas essas coisas,
Que tive carros, fiz guerras e amores.
Agora que sei dançar!

II
O hálito matutino me invade,
E era uma flor estranha aquele vento.
Estava no mesmo lugar em que as coisas morrem.
Mas eu era a vida
Cheia de coisas tingidas e sensuais,
E palavras persistindo-se à exaustão de tudo.

Bordéis e bêbados, em ressaca,
E o silêncio trazido numa nuvem fria
Ocultava a derradeira estrela, lá no firmamento.
Vi putas e meliantes a andarem juntos
Devorando-se e a nós, que no lirismo do descabido
Convínhamos apenas

E após rasparem da noite sua última gota de violação e risco
Fecharam seus corpos numa armadura de silêncio

III
Olho o horizonte enevoado,
E amo mulheres que se abandonam a mim
Mas em vão vigio meus olhos inquietos
Para cobiçarem apenas o que já é meu, e que descansem:
No enquanto, meu ser transgride a si mesmo

Trago comigo um desejo de cais, de gares,
Uma condição de estrangeiro aporta em meu corpo.
Pudesse eu tornar-me livre e ser outro que não o eu de agora,
Pudesse ser mais forte, terno e distante do que me é mesquinho.
Mas seria apenas outro,
Também desejoso de ser livre,
Também em busca de felicidade, reconhecimentos e realizações.
(Libertar-me é não mais querer essa liberdade)

IV
Na escalada do tempo todos estavam descalços.
Na festa fantástica das horas
O vento foi mais pavoroso
Para quem não coube nos nervos da incerteza.
Conto essas coisas como se as soubesse bem,
Mas bem, apenas me sei erguido:
Semelhante a um velho, maravilhado diante das coisas vistas,
Feito criança, sereno diante das que não vi,
Feito homem, limpo por não ter lavado as mãos,
Feito um louco, sóbrio por ter tomado a dose precisa.

Ah, vida, és o jogo do acaso e do destino...
Não mais nem menos que a vida vivida,
Não mais nem menos é qualquer vago e misterioso fato,
Sem ato ou efeito de transpor.
Lembranças de estradas e limosidades...
De canções ao vento e jogos de gude...
E o lume de búzio sob o mar irisado...
Tudo prontidão de ciranda e silêncio.

V
A manhã cintilante e enevoaçada
Tem cheiro de mar...
Manhã achegada de calma lentamente,
Que colhe demanda e embrutece:
Revés dos revezes d’outrora.
(Medito-me no que aporto)

Afora, sou atávico como todos,
Desejando minha cama, feito um bicho...
Amando meu corpo desgastado pela noite,
E minha mortalidade mais que a tudo...
Assim como todas as noites passadas e futuras,
E todos os dias, até os mais infelizes.

(Ainda me recordo e estou vivo: desejoso de vida como quem amarelece)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

PERFIL

O barco descia uma correria só
Crivada de caudas frágeis
Pelo céu, se via a mesma água que um rio...
Manchas macilentas, o destino do barco era a travessia
O destino do homem, era o barco
Quem pensaria no que se dava, acaso os visse,
Barco e homem, adjuntos num instante!?
Quem pensaria em perguntá-los: "Acaso vão, senhores?"
Acaso querem ajuda?
E nas águas, o afluxo da inconstância se repartia,
Para que logo à diante se revestisse texturizante
A indolência prática das corredeiras
Entre cores, crivos e margens
Que como eras, refirmavam, lado a lado
A hora equidistante da noite

A NAVE DAS HORAS

Meu coração se cai vicinal e cheio,
Feito uma nau vinda das índias,
Com seus tapetes perfumes e coisas exuberantes
Atiçando a imaginação dos homens gânglios e ciosos.
Minhas mãos trago-as suaves,
Para que possam dar carinho a toda gente só como eu.
Minha vaidade, deitei ao chão no dia em que estive comigo,
E decidi guardar segredo sobre todas as coisas que sei,
E só falar sobre as que não sei.

Ó paixões a luar-vasta, florestas de multidões...
Ó intimidade das coisas distantes
Que observo e dou nome como a uma estrela...
Quantos dias ainda viverei entre os seres!?
Quantos heróis inda terei!?
Talvez de nada valeria saber...
Sofreria!
Mas já sofro sem o saber.

Quem sabe, eu mesmo não me tenho definido e comportado
Tão corriqueiro, trivial e adoecido?!
Quem sabe quantas vezes
Não fiz da infelicidade um motivo para viver,
Receber afetos e fazer poesias?!

Tantas urgências nos perseguem...
Tantos Eu Tenho que ser e fazer.
Tantos Ah, se eu soubesse...
E pequenas discórdias, invejas e explicações.

Mas eu também tive um amor
E gostaria talvez de estar com ele agora.
E escrever o amor e a doçura,
Ao invés das guerras e convulsões do meu tempo.
Mas há séculos os homens têm queixado-se tanto pelo que não são:
E quanto a mim, detrator do meu mal,
Sou por isso melhor ou pior aos olhos de todos!?
Sou merecedor de mais ou menos favores dalgum júri!?
Basta-me que denominamos injustos
Os que disseram Sim
Pelo terem o que mereciam,
E justos os que disseram Não
Pelo não terem o que mereciam.

Estranha irmandade e malícia que nutro por todos...
Ó ternas sinfonias de gentes,
Que passam em mim feito frases amorosas...
Que recordo e confesso...
Esse mundo, um infinito de infinitos...
Um mover-se eternamente...

DESCRIÇÃO ALONGADA SOBRE A CASA ONDE MORO

Moro numa casa decorada de apenas no por fora,
E visito-me no quarto mais escuro.
Estou cego! Estou cego!
Faço recordâncias em profundezas de brejos.
Areal se derretendo, pêndulo em sol,
Navio negreiro berlindo de bem longe... Longe... Longe...
E após escutar Manoel de Barros
Já criei até metas-físicas: como a de atravessar um rio,
Pisar em terra descalço, assobiar pássaros,
E aguardar o regressar manso dos peixes.
Tudo desetiquetas e singelesas miúdas em cordõezinhos para pulseiras.

Não sei se correspondo nada,
Assemelho-me a um parque
Com mármores gastos nas escadas e assentos.
Não carreguei o pendão de nenhuma vitória ou derrota alheia.
Nem sei se sou adequado ou bem vindo
A esteira de brinquedos do vizinho...

O TEMPO É DURO E SECO

O tempo é duro e seco
Como o rosto de uma mulher que não amamos.
Ela nos acorda e fita de brinquedo,
E faz chantagens de amor...

Ela é bela, mas não se consuma,
O tempo é duro e entreaberto.
(E o que seria dela se a amássemos?)
Foi exilada de nossas lembranças,
Para que lembrássemos de coisas que não são ela.
(Vejam! Até parece que a amamos)

O tempo é semelhante ao vento que alisa a encosta dura.
Mas era a encosta, esse seu espelho.
Há visgos e ferrugens em tudo.
E quanto às discórdias,
Parecia que ninguém estava certo.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

PRONTIDÃO DE TERNURA E ACASALAMENTO PARA COM AS COISAS:

É preciso que falemos de palmeiras ao sol,
De barcos e acontecimentos.
É preciso que falemos o nosso amor
E para ele tragamos as palmeiras, o sol, os barcos e os acontecimentos.
É preciso até que façamos promessa em casca de árvore.
Mas não como paisagem inerte, ambientante e operária.
Não como pedaço de coisa sem vida,
Mas coisa singular, coisa amada.
Não coisa que faz pensar,
Mas coisa que faz pensar em nada.
E amá-la pelo poder de vazio e arrebatamento que instaura.

No amor se está feito ser indefenso.
Até quando instalados na vontade cansativa de desgastá-lo, amor...

ÓPIO E REFLUXO

Estar delegado ao asno
Feito feno que se ilude
Corrompido pela boca magnânima do cuspe

Nos despedimos, e a despedida não concede a trégua
As folhas caem, e nossa facticidade convicta atravessa o crespo
De solução em solução
Onda... Recomeçamos
Com uma fé prosaica no recomeçar
Mas cientes da insensatez que preside tudo.

Fizemos trocas insubstanciais em pequenos frascos
(A filigrama nos concede)
Há tempo,
Mas o tempo é um córrego convicto em seu propósito...
Nós... Temos em muita vez medo dos propósitos

O engajamento válido,
É também um realismo morto...
Somos sóbrios
E a sobriedade é o estar atento à invenção

Tomamos ópio
Talvez haja nele um algo que nos vitalize
Pensemos assim:
Ainda que haja asco, rebusquemos o episódio da insensatez