domingo, 5 de julho de 2009

CANÇÃO ESQUECIDA (A Mirella)

I

Tornara-se líquida e já mais definitiva como o mar,
Espelho de sombras e reminiscências ascendia meu corpo,
Urdindo o tecido estranho da renúncia.
Como espelho de sombras e árvores,
Testemunhava o outono e resistia mais simples,
Revestindo os episódios de lisura e nobreza.

Estendo-me ao teu lado feito
Vela imensa de um barco antigo e extinto.
Só eu, e ao teu lado, escuto a tua voz obstinada,
Maviosa e pequeno sopro, e te sigo atento e paciente.
Não sei para onde me levas, ou mesmo se me levas,
Ou se sou eu que te levo...
Apenas vamos...

Ó nervos ternos!
Ó nervos tensos!
Ó nervos dispostos!
Minha poesia, ritmo adverso,
Te aceita no país em que estavas nua,
E as bailarinas de todos os cassinos adormeciam.
Tornara-se humana e exata e participava
De uma ancestralidade que eu reconhecia.
Robustez dos mármores desgastados...
Musgos e liquens, charcos esquecidos...
Alamedas escuras e ressonâncias de mulheres
E homens: enigmas anônimos e concluídos.

Ainda há quem ame os portões enferrujados das casas antigas
E as ramagens e ervas solitárias que vicejam neles.
Ainda há quem ame os passarinhos
Que ciscam nos telhados dos casarios
E suas paredes grossas e esverdeadas.
As lagartixas e os gatos em cima dos muros,
O vendedor de vassouras e as velhinhas
Caminhando lentamente pelas brechas vigorosas do tempo.
Ainda há gente como você, que reverencie a nobreza sólida,
Residente na memória dos seus mortos.
E os recorde com tanta pungência e ternura.

És antiga como a impressão de ter sempre havido
Coisas semelhantes a parques e aquários.
E és também como os peixes e as crianças que viviam neles.
És aquela que se comove com os circos erguidos
De lonas rasgadas em cidadezinhas esquecidas,
E ainda sente piedade pelos bichinhos magros que os acompanha.

II

O dia é frio e chuvoso, mas é primavera,
E eu trago um romantismo simples e abstrato
Que me fala das coisas também de modo simples e abstrato.
Porque já não temo a vida,
E eu, só a sei assim, dentro de um cheiro denso,
Cheiro de terra umedecida,
Assim, através do ritmo dissoluto dos elementos.
Invaginações das ânsias dos séculos...
Sonhos que adentram em sonhos...
Sortilégios futuros e sons sobrenaturais das águas...
Eu, assim como você, carrego essa saudade
De um tempo que não vivi...
Sou só...
Demasiadamente só...

Os homens são todos eles atores deles,
Corrompendo-se no heroísmo dos dias.
A arte é toda ela épica como a vida.
E a morte talvez seja o tempo donde os heróis nascem.

A louca vestiu-se de preto e nos contou a única verdade.
Caminho à sua janela, seu corpo é tão misterioso
Quanto a sombra que o envolve, seus olhos,
Vereda nemorosa dos destinos, de todos os destinos,
Dos seres, e de suas épocas.
O destino é exato como a loucura!
Mas os homens estão mortos,
E eu sou incerto e desabitado.

III

É deste modo que nos entendemos, eu e tu:
Eu, este barco e esta vela a espera de sinais,
E tu, reverência e brandura para meu vôo.
Eu, calmaria póstuma e brevidade,
Tu adormecias em meu sonho e me explicava a saudade.
Eu, timidez exilada e palavra empedernida,
Tu, Eu confesso, e aresta aparada.
Tu, Eu, vontade de que sejas e me inclua,
Onde eu já não seja barco, ou vela, ou pássaro que se movimente,
Mas apenas uma chave para as portas por que passara,
Para as portas ásperas e desesperançadas que me ensinara.

Te sou grato como a terra às chuvas e os amantes às flores.
Te sou grato como as tardes agradecem aos dias,
E as noites às tardes, e ao regressar disperso dos dias.
Te sou grato, devotado e persistente.
Assim como o viver é rumor e certeza
E o morrer, a visitação profunda da renúncia.

Um dia, teu avô tão amado irá regressar,
Vindo de alguma zona anônima e silenciosa.
Um dia, quando nem eu, nem tu estivermos mais aqui,
E não restar senão sombras e frêmitos de nossas existências,
Ele regressará, leve e misterioso como a bruma,
E amará uma netinha, menina dançarina,
Meiga e emotiva, e de sorriso fértil.

Um dia, quem sabe, quando estivermos distantes,
Alguém irá encontrar entre o pó e a palidez dos anos
Uma caixinha esquecida num porão,
Guardando algum poema que te fiz.
Então, eu e tu ganharemos a beleza silenciosa das eras.

3 comentários:

  1. Lindo, simplesmente cada imagem passa pelos sentidos.

    ResponderExcluir
  2. ave-maria, quase chorei...

    ResponderExcluir
  3. Valeu Robson e Tainá
    O desejo é que ele seja imagético e emotivo mesmo -
    Espero, sem ser piegas rsrsrsrs
    Bom - acho que muita gente desiste dele quando vê o tamanho...

    ResponderExcluir